Portugal tem um problema noticioso quando trata-se de rádios de notícias – ou a gente tem um problema noticioso com as rádio de notícias de cá: fora a RTP, que é a pública, tem uma. Indiscutível que isso prejudica a diversidade de opiniões e de enfoques, blá blá blá, mas felizmente garante uma boa dose de diversão. Se a cobertura às vezes peca pela falta de isenção, as vinhetas não permitem que a audiência tire o sorriso do rosto.

Lá estava você quase se irritando com a âncora do jornal a dizer que o que se via na praça central grega eram atos de puro vandalismo e entra essa vinheta aqui:  “As conversas são como as cerejas. No regresso a casa, vêm umas atrás das outras. Sempre inesperadas.” Ahn?! Será um programa sobre cerejas? Não, é um ditado português sobre começar e não parar mais. Pronto, pode se acalmar.

Tá, pode ser mesmo algum hiato cultural entre as referências das vinhetas e nossa capacidade de compreensão. Mas e o grito de Tarzan numa que narra uma série de grandes acontecimentos da humanidade? É como a imagem do homem chegando à lua seguida da de um unicórnio… Vai ver que é porque foram até a França fazer uma reportagem da radio sobre o campeonato de gritos de Tarzan. Mas, por via das dúvidas, mandamos um e-mail para entender e assim que vier a resposta, botamos aqui.

Na lista de mais algumas sacadas enigmáticas há a voz solene e por vezes aterrorizante do narrador. Ele anuncia um programa sobre melões, uvas, chouriços em pacatas cidadezinhas do interior de Portugal e você jura que é um documentário sobre mortes em série na zona rural.

E ainda o título de uma reportagem interessante sobre como quem é cego de nascença vê o mundo: “vermelho da cor do céu”.

O slogan da rádio é “do fim da rua ao fim do mundo”. Há várias reportagens sobre o fim da rua no site – até um blog. De fim do mundo, nada…. A-há, fim do hiato cultural. É na Argentina! E não é no estádio do River Plate. Eles é que disseram quando tentaram materializar isso nos 20 anos da rádio, mandando um repórter para a capital da província da Terra do Fogo, a cidade mais austral, conhecida precisamente como o fim do mundo.

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Tratar por tu

julho 19, 2011

E, mas uma coisa que estes tugas sabem fazer bem é usar o português. Além do sotaque, o português e o brasileiro são difererentes por causa das construções povoadas de ênclises (ahn?!), mais indiretas e o uso de cada pronome para uma situação.

Nas entrevistas e e-mails do dia a dia, a gente garimpa as construções comuns daqui e tenta reproduzir. Vez por outra recebemos algumas dicas sobre a forma de escrever e tratar as pessoas deste lado do atlântico. Dependendo do tom, agradece-se o toque e passa-se a falar melhor na língua local. Mas estamos longe de conseguir usar no dia a dia construções rebuscadas como as que eles fazem. De vez em quando, até largamos uns suspiros baixinhos sem que o interlocutor perceba. Como ele disse essa bobagem de uma forma tão bonita?

Mas isso não vem assim de graça. O rigor com o falar, a forma de falar é também muito maior aqui. Enquanto no sul do Brasil usamos o sujeito tu e conjugamos o verbo como se fosse você (em alguns lugares, já sei, porto alegrenses) e não estamos nem aí, em SP e Rio todo mundo é você, mas também não tem problema você manter o tu. Por todo país, o momento de usar “senhor” é intiuitivamente descoberto sem grandes consequencias se mal entendido. Às vezes um “seu” resolve melhor.

Aqui o pronome é usado pelo significado da relação que se tem com a pessoa e a mudança dele mostra que a relação mudou. “É aquele tipo de pai que trata as crianças por você”, dizem para se referir às famílias muito formais, em que são uns distantes dos outros. Estas, às vezes, usam os nomes ou substantivo das pessoas em vez de tratá-las por pronomes, essa é a forma mais comum de distanciamento aqui.

Tão distante que às vezes nos deixa meio em dúvida se a pessoa subitamente deixou de nos ver. “E a menina já decidiu qual gelado irá comprar?” Poxa, mas o gajo está falando comigo ou está comentando com o colega sobre minha indecisão de qual sorvete escolher? Para dizer o quão você é íntimo de uma pessoa, distraidamente você (ou tu, porque somos bem próximos dos nossos queridos leitores) larga: “temos uma relação de tratar por tu, ir beber um café”.

Abaixo vão algumas frases bem construídas

De certeza absoluta que me vai fazer sentir bem.

Nela nunca na vida se pode achar culpa do que se está a passar.

Até provavelmente não te vai doer porque vão dar anestesia local e tudo.

Pagamos-lhes mal, damos-lhes pouco benefícios e tudo bem.

Apego à terrinha

julho 11, 2011

FFF: futebol, família e fátima é o acrônimo que melhor descreve os portugueses, disse ano passado um guia turístico. Faz sentido. As paixões pela pelota nas tascas não ficam muito atrás das que vemos nas discussões de boteco. Não faltam igrejas e procissões pelo país. Os jovens portugueses, em geral, têm uma ligação forte com a família e relutam em sair das suas terras.

Estereótipo que é estereótipo é sempre, enfim, estereótipo: impreciso. Assim, a população do distrito (como se fosse o Estado no Brasil) de Lisboa cresceu por volta 5% nos últimos dez anos enquanto a do país não aumentou 2%. A capital tem maior dinamismo econômico, atrai pelas oportunidades no mercado de trabalho. E lá vão trabalhadores.

Mas não ficam, muitas vezes, no fim de semana. Deslocam-se de uma cidade para outra toda sexta ou sábado e vivem afetivamente ligados a um lugar e economicamente ligados a outro. Dizem que por não terem opção, gostavam é de poder ficar nas suas terras. Falta é emprego.

callingeurope.blogspot.comOntem viemos de boléia do Porto a Lisboa com um gajo que faz esses 320 quilômetros e mais um pouquinho para ir (quase) todo o fim de semana à sua terra, Guimarães. De Lisboa, mal sabe o nome das avenidas.

E viver mesmo, é cada vez menos nas capitais e cada vez mais nas cidades da região metropolitana — como o gajo da boléia, que também morava aqui em volta. O redor de Lisboa vem crescendo em população enquanto a capital se reduz: 4 dos 5 maiores crescimentos populacionais do país nos últimos 10 anos, superiores a 30%, foram em cidades que cercam Lisboa. Essa aí perdeu 4% da população no período. O mesmo acontece no Porto, a segunda maior cidade do país. Ambas polarizam cada vez mais cidades à sua volta. O INE, o IBGE daqui, diz que elas polarizam cada vez mais as cidades e cada vez o raio de alcance aumenta.

E adivinham como esse povo móvel se desloca? Cada um no seu carrinho. Um estudo de 2001 sobre o deslocamento nas duas áreas mostrou que 50% iam mas era de carro, 40% dirigindo o seu. Dez anos antes, eram 20% ao volante. Imagina hoje? A gente pelo menos foi no banco de trás.

Quem sugeriu foi o Financial Times, um dia antes do Dilmo e da Lula chegarem a Portugal: a solução para a terrinha aqui é se anexar ao Brasil. No duro. Tipo jangada de pedra, mas deixando os espanhóis para lá. Mais ou menos numa versão econô(ó)mica daquela fuga da corte portuguesa para o Rio no século XIX.

E não deu outra durante a visita da nossa corte à Metrópole: jornalista que se prezasse iria conseguir arrancar, de Cavaco, Dilma ou Sócrates a frase de que, sim, o Brasil vai comprar títulos da dívida de Portugal. Não vou dizer que não tentamos  – ou não teria havido  luta-livre entre imprensa e segurança nas portas da Universidade de Coimbra, no último dia 30.

Não adiantou. O Cavaco, na sua rouquidão serena, só fez comentários sobre o modo como era chamado de “ô, seu Cavaco” por uma brasileira. O Sócrates sorriu para as fãs. A Dilma, quando perguntei em bom português, se fez de boa búlgura. Um dia antes tinha dito que ia pensar no assunto, depois de o Lula insistir que o Brasil tem que dar uma mão aqui pros parente.

Vai depender da mão dela mesmo, pelo jeito, porque os bancos privados brasileiros não têm estado lá muuuito interessados em emprestar dinheiro para cá, seja para governo ou iniciativa privada. Mas estão um pouquinho. Primeiro, o copo meio cheio: de US$ 764 milhões em dezembro de 2007, a exposição de bancos brasileiros a portugueses – da corte ou fora dela – subiu para US$ 1,1 bilhão em setembro de 2010. Com crise e tudo!

Agora aquela visão sangue-no-zóio: proporcionalmente, os bancos brasileiros emprestavam aos portugueses, em setembro de 2010, menos do que em dezembro de 2007.

É, é o tal do amiguim da onça, ou do business as usual.

É brincadeira, gajada

março 10, 2011

Não vamos dar uma de brasileiros e manter aquele desânimo da quarta-feira de cinzas, pô.  Ânimo, rapaziada. Ou, Ânimo, gajada, para corromper uma palavra que não atravessou o Atlântico.

É assim mais ou menos que o premiê e o presidente de Portugal se referiram à juventude daqui, que está numa folga que eu vou te contar. Eita povinho que desocupado: o desemprego entre os 18 e os 25  está em 23%. É mais que o dobro da média nacional, de 11,2%, que já é recorde desde pelo menos uns 20 anos, quando ainda talvez se chamasse fila de bicha – algo que a imigração brasileira, parece, fez desaparecer.

Primeiro, para não perder a piada, foi o premiê: na terça-feira, interrompido durante um discurso por uns jovens que faziam protesto contra a falta de emprego, mandou lá: ” “Se me permitem, camaradas, eu gostaria de fazer um convite às pessoas que agora entraram para jantar connosco, não temos nenhum problema nisso. Somos um partido da tolerância, estamos no Carnaval e a verdade é que no Carnaval ninguém leva a mal.” Os seguranças dele é que parecem não ter ouvido o recado e botaram o bloco dos indignados na rua.

Ontem foi a vez do Cavaco, que se reelegeu no último dia 25. Quando nem bem a ressaca de ontem tinha passado, pediu que os jovens ajudassem Portugal a se tornar mais credível na cena internacional.  Para quem exagerou no lança-perfume, a terrinha aqui é dada como a próxima Irlanda, aquela que um dia foi a próxima Grécia.

E mais: mandou a galera remar, que nem fizeram que tornaram o país um império um tempinho – algumas revoluções, um Estados Unidos, uma China… – atrás . No duro: “Quando olhamos para estes jovens e quando olhamos para a imensidão do mar português estamos a olhar para o futuro de Portugal. Caros jovens, estou certo de que não ireis baixar os braços. Estou certo de que não se resignam. Portugal precisa de vós, Portugal conta convosco”, disse no navio-escola Sagres ontem.

Cadê a alegria nesses rostinhos?

Desculpem o mau-humor, mas é que passamos o carnaval numa gripe de lascar, trocando fantasia por pijama e cerveja por caldo verde.

Questionadores, esses teimosos tentadores de janelas estão por toda parte. Onde menos se espera – como o café da reitoria da universidade – se encontra quem leva o esporte às últimas consequencias. Como aquela senhora que conversava sobre escovação dental com seus amigos velhotes enquanto finalizava a sopa.

Uma das premissas a se ter na vida é não levar para casa e inserir no cotidiano informações que soam a axiomas de um teorema. Ou seja, não botar fé em qualquer papinho besta sem pelo menos perguntar “É memo?¨. Era o que tentava mostrar a velhota aos amigos, talvez sem se dar conta, quando contava sobre sua desconfiança em relação aos vaticínios de uma amiga – quem sabe uma neta, uma sobrinha –, que alardeava a necessidade de sermos todos sustentáveis.

Vai um copinho?

A amiga da senhora e do meio ambiente – como todos viemos nos tornando – recomendava a mudança de hábitos, munida de dados que atestavam a urgência disso. Para que fechasse a torneira, ela argumentava que uns 9 litros de água são disperdiçados durante a escovação. A senhora achou aquilo demasiado. “É memo?”

Foi escovar os dentes e levou junto uma bacia. A água que seria disperdiçada ficou ali e ela pode medir o gasto: 3 litros. Seus dois amigos velhotes aprovaram a atitude com trocas de olhares vencedores.

Até que um se lembrou: se calhar, também não escovava exatamente da forma como recomendam os peritos, daí a diferença para os dados trazidos pela amiga em questão. Ela, uma insurgente, concordou. Mas foi lá buscar outro argumento para provar ser sustentável. “Na verdade também não tenho mais tantos dentes. Restaram só uns pedacinhos para segurar os que eu posso tirar.”

Todo mundo concordou que os banguelas, se calhar, agridem menos o meio ambiente. Ela se tranquilizou. “Escovar os dentes usando o copo, não. Lembra o tempo em que era nova, não tinha outro jeito. Lembram?” Eles assentiram. “Luz branca eu também não gosto, é muito claro para se ter numa casa.”

Lisboa pronta a usar

dezembro 20, 2010

Em Lisboa, dar pernadas é o melhor passeio. Vira e mexe se encontra um miradouro, uma praça cheia de gente do mundo inteiro – e não só da Europa ocidental -, uma tasca (boteco) com gente mais fora do que dentro batendo um papo. Sempre com o Tejo prá compor a paisagem.

É uma beleza prá quem mora. Prá turista, então, nem se fala. E se prá turista é bacana, que dirá para quem vive de turista, né? Em Lisboa, 9% do PIB  vem do bolso da galera que veio comprar imã de geladeira, azulejo de galinho de barcelos, caldo knorr por haxixe e comer maravilhosamente bem.

Então é bom manter as coisas arrumadas para as visitas. É o que a Câmara Municipal (equivalente à prefeitura) está fazendo com a Baixa – o centrão de Lisboa -, principal destino turístico da cidade. Amanhã vai à votação um projeto que, diz, tenta fazer a região ficar mais jovem, mais movimentada, mais bem cuidada, mais organizada, mais cheia de comércio de luxo. Mais consumível, como diz um sociólogo daqui. Tanto que algumas ruas vão virar shopping a céu aberto – em São Paulo, a rua Oscar Freire, crème do comércio de rua no Brasil, faz uma coisa mais ou menos assim no Natal. Saiu uma matéria nossa no Estadão de ontem.

A ideia é dar um tapa nessas fachadas meio velhotas e noutras ainda piores

Aliás, vão fazer o mesmo em várias regiões da cidade, como Alfama e o Chiado. Bacana. Dá muito mais dinheiro ter um monte de apartamento para jovem ou turista do que para velho aposentado. Também é muito mais sossegado andar num bairro cheio de gente do que em ruas mortas como as da Baixa ficam à noite. E o mercado imobiliário, é claro, agradece a suspensão de leis que dificultem a realização de obras ou a compra e venda de imóveis.

Bacana também é ver como é que a galera que não é turista, não é jovem e não compra em comércio de luxo vai fazer para consumir essa cidade.

Engajada que dói

dezembro 16, 2010

Medíocres francófonos que somos, a gente não entende nada de chanson française, não sabia que há várias correntes e particularmente uma que podeira nos interessar, a engajada. Acabamos num show da Agnès Bihl, na Mediateca de Paris, por acaso. Escolhendo os shows gratuitos no guia Lylo, em horários e locais que conseguíamos chegar e de gêneros que desconfiamos que poderíamos gostar.

Tresloucada, histérica e acompanhada de uma pianista que ela mesma chamou de psicótica, fez um show incrível. Cantou uma mãe desesperada que vê o filho recém-nascido como símbolo de anti-feminismo. Ironizou uma amante explorada pelo namorado rico: “é o homem para você”. Apontou a incoerência do mundo e tirou a gente do sonho suspirante de andar por Paris.

Enquanto a beleza e a poesia ordenada se espalham pela ruas, casas de show, padocas, quitandas da cidade, Agès olha para o outro lado. Bom. Se a Carla Bruni canta o amor, ela canta a pedofilia. Forte até para quem não entende francês. Aí embaixo, Touch pas à mon corps do YouTube porque não conseguimos subir o áudio que fizemos lá no show. (Alguém sabe?)

No Brasil, usamos dor como expressão de exagero. Agnès é engajada que dói.

Manja experiência antropológica? É um eufemismo, muito em voga, para um belo programa de índio. Tipo aquele do qual saímos faz umas horas – menos do que as 40 da aventura.

Foi a volta de Paris para Lisboa, num ônibus carregando os brasilinos aqui, outros ex-colônias (como cabo-verdianos) e um punhado de emigrados portugueses na França. Duraria um bocado, 27 horas, e seria mais longa ainda se não fosse a gente adotar a postura otimista aí acima.

Faltou limão, açúcar e pinga, né?

Nas primeiras 12 horas tínhamos rodado uns 30 km. Se ainda fosse mantida a média de 2,5 km por hora, dava para ir apreciando a paisagem. Mas que nada. Saímos às 10h de Paris, empacamos perto de Versalhes às 12h e voltamos a circular umas 23h. Uma baita nevasca, em que até pingüim passava de cachecol, fechou a rodovia.

“Só às 11 da noite. TGV e aeroporto já estão funcionando. Viva a França!”, dizia um caminhoneiro que também entrou na brincadeira a contragosto. O indignado aí acertou, mas como não apareceu uma boa alma para dar uma previsão exata, a regra era ficar por perto do ônibus. Não que o pessoal todo estivesse afim de sair correndo para fazer bonecos de neve muito longe dali, mas tinha um bar daqueles em que amendoim e batata chips acompanham cada cerveja. Um crime colocar um negócio desses perto, mas fora do alcance de quem tem horas a fio para jogar fora.

A galera, que já tá no movimento comida caseira antes de aquele francezinho lançar a moda, começou a torrar os estoques. Caíram para dentro até os croissants e fromages que tinham ficado lá no bagageiro para virar, talvez, presente pros parente. Uns abriram umas cervejas. Celulares, Bíblia, dar de mamar para o bebê ajudaram outros a matar mais um bocado do tempo.  Botaram o filme “2 filhos de Francisco” para rodar. O som tava baixinho, mas quem tivesse bom, mas bom mesmo das vistas podia acompanhar a legenda em uma das duas telinhas de 10 polegadas estrategicamente distribuídas em um ônibus de 50 lugares.

Mas como DVD, bateria e paciência também arriam, pouco a pouco as diversões particulares foram indo pro beleléu – ou melhor, esfriaram, já que nada se mexia no meio daquela geleira toda. Hora de olhar para o lado ou para fora. Uma jovem foi toda peralta brincar com a neve, um grupo de mulheres se entreteu na conversa dum tanto que até passou a ir junto no banheiro  durante o resto da viagem, a criançada me achou com cara de palhaço e veio tirar onda da minha barba, uma idosa pediu o celular para a Simone. “Ô Brasil, fumas uma ganza (como se diz por aqui)?”, perguntou o vizinho do lado. O de trás se mudou lá para frente para paquerar. Uma senhora deitou-se no corredor prá brincar com o neto: “Pisa o cu da vó! Pisa o cu da vó!”, gritava pro guri. Cu, em português português, é bunda, seus maldosos.

Com tanta animação e gelo, faltaram mesmo açúcar, pinga e limão.

“Se a gente nào tivesse encalhado”, comentou a Simone lá pela trigésima hora de viagem, “não tínhamos visto o País Basco”. No cronograma oficial, passaríamos por aquela região durante a noite. Assim sim.

Ontem foi dia de greve geral em Portugal, a primeira desde 1988 feita pelas duas grandes centrais sindicais. Fomos para a rua fazer a cobertura — a Simone para O Globo, eu para o Opera Mundi.

Sem querer entrar  inevitável na guerra de números entre governo e sindicatos, deu prá ver que bastante gente parou. Não é todo dia que o metrô da capital de um país fica fechado durante um dia todo ou que as conexões entre um lado e outro do rio da cidade param completamente. Nem voando dava para sair de Lisboa: quase todos os voos – exceto um ou outro para os Açores e para a Madeira – foram cancelados.  “Fomos pá greve lutar pelo país”, botou num cartaz o dono de uma merceria aqui perto de casa.

ocê vê isso...

Caos? Filas intermináveis? As massas nas ruas? Nem por isso. Nessa semana, Lisboa vai ter dois sábados. Um foi ontem, em plena quarta-feira: serviços públicos fechados, pastelarias abertas. Além disso, não houve um grande protesto, como ocorreu em 29 de setembro ou em 1 de Maio.Todo mundo paradinho mesmo.

Estranho, né? “Êpá, eu sou português, mas juro que acho que morro sem entender os portugueses”, disse um amigo nosso.

A gente desconfiou lá em outubro, quando ligamos para as centrais sindicais para perguntar sobre qual era a programação da greve.  Um dos argumentos é que, sem transporte público funcionando, ia ficar difícil para o pessoal se deslocar até os locais da manifestação.

...e acredita nisso?

Houve até uns grupos que se reuniram ali na Praça Eduardo IV.  Tocaram música, bateram bumbo, levantaram cartazes, fizeram shows e sketches. A turistada se juntou aos jornalistas para fazer foto, um político ou outro fez discurso, e deu. A greve foi no piquete ou em casa.

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