Questionadores, esses teimosos tentadores de janelas estão por toda parte. Onde menos se espera – como o café da reitoria da universidade – se encontra quem leva o esporte às últimas consequencias. Como aquela senhora que conversava sobre escovação dental com seus amigos velhotes enquanto finalizava a sopa.

Uma das premissas a se ter na vida é não levar para casa e inserir no cotidiano informações que soam a axiomas de um teorema. Ou seja, não botar fé em qualquer papinho besta sem pelo menos perguntar “É memo?¨. Era o que tentava mostrar a velhota aos amigos, talvez sem se dar conta, quando contava sobre sua desconfiança em relação aos vaticínios de uma amiga – quem sabe uma neta, uma sobrinha –, que alardeava a necessidade de sermos todos sustentáveis.

Vai um copinho?

A amiga da senhora e do meio ambiente – como todos viemos nos tornando – recomendava a mudança de hábitos, munida de dados que atestavam a urgência disso. Para que fechasse a torneira, ela argumentava que uns 9 litros de água são disperdiçados durante a escovação. A senhora achou aquilo demasiado. “É memo?”

Foi escovar os dentes e levou junto uma bacia. A água que seria disperdiçada ficou ali e ela pode medir o gasto: 3 litros. Seus dois amigos velhotes aprovaram a atitude com trocas de olhares vencedores.

Até que um se lembrou: se calhar, também não escovava exatamente da forma como recomendam os peritos, daí a diferença para os dados trazidos pela amiga em questão. Ela, uma insurgente, concordou. Mas foi lá buscar outro argumento para provar ser sustentável. “Na verdade também não tenho mais tantos dentes. Restaram só uns pedacinhos para segurar os que eu posso tirar.”

Todo mundo concordou que os banguelas, se calhar, agridem menos o meio ambiente. Ela se tranquilizou. “Escovar os dentes usando o copo, não. Lembra o tempo em que era nova, não tinha outro jeito. Lembram?” Eles assentiram. “Luz branca eu também não gosto, é muito claro para se ter numa casa.”

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Arroios é um dos bairros da região central de Lisboa com maior proporção de brasileiros. é um grupo, mas em situações muito diferentes uns dos outros.

Em busca de brasileiros que estivessem fazendo o caminho de volta para o Brasil, para o OperaMundi, fomos para as ruas do bairro. A ordem era parar qualquer um que falasse brasileiro e entrar em todas as lojas de produtos nacionais e quaisquer salões de cabeleireiro — pelo menos nessa região de Lisboa, o serviço é monopólio tupiniquim. “Brasileiro voltando? Nunca ouvi alguém falando isso. Mas será que tem mesmo?” Foi a resposta em dois salões diferentes. Em um destes, ninguém ia, mas todo mundo quis saber sobre. Parecia que, subitamente, algo em que evitavam pensar se tornou permitido.

Virando uma esquina, encontramos Graça, que não só ia voltar como contou que o namorado e os quatro companheiros de apartamento estavam de viagem planejada. Era passar uma meia hora conversando na loja e esperar: quase todas as clientes que apareciam estavam voltando. Atravessando a Avenida Almirante Reis, que divide o bairro, encontramos mais grupos com o retorno marcado.

As atendentes de um mercadinho deram o endereço de um cliente que estava voltando e avisaram que não era o único da casa. Por 24 horas, não o conhecemos. “A essa hora ele deve estar chegando no Brasil”, disse o senhorio ao abrir a porta. No mesmo apartamento, havia outras duas meninas programando viagem, mas nenhuma concordou em falar. Provavelmente se sentindo culpada de combinar a foto e mandar SMS para desmarcar, uma delas passou quase dez telefones de brasileiros a caminho de casa.

A deteminada hora da noite, recebemos até ligação oferecendo entrevista. “Oi, vocês estão fazendo reportagem sobre quem está voltando, né? Uma amiga me passou o telefone. Eu estou.”

A diferença de votos do 1º para o 2º turno em Portugal sugere que os eleitores da Marina foram de Serra ontem (a cobertura que fiz está no G1 aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Como deu para saber disso antes de iniciada a apuração no Brasil, a dúvida se colocou: e se a coisa for no mesmo caminho no Brasil? O pessoal do PT que acompanhava a votação na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (também houve no Porto) deu uma coçada na cabeça. Do PSDB não tinha ninguém visível.

O Serra aqui deslanchou do dia 3 para o dia 31 de outubro, enquanto a Dilma deu umas remadinhas só. Na verdade, duas: foi de 56% para 58%. O tucano foi de 29% para 42%. São 13 a mais. Como a Marina no 1º turno ficou com 14% – e os números totais de votos não se alteraram lá muito entre uma votação e outra -, é de se supor que quem foi de Avatar aqui, depois preferiu o  Nosferatu à Mônica.

Os dados do 1º turno são do TSE. Os do 2º são apuração própria.

Tem que o mercado precisar de informação e não conseguir para se perceber que há algo de errado não com a gente, mas com a política de comunicação do governo português. Como a gente sempre reclama em mesa de boteco e não publica as pancadas, aproveitamos o puxão de orelha dado pela OCDE para desenterrar todos os sufocos passados com o governo daqui.

Um dos primeiros foi uma matéria fofa que fizemos sobre o Pedibus, um ônibus humano que leva crianças caminhando para a escola. A Câmara (equivalente à prefeitura) de Lisboa levou um mês para responder a um email perguntando se a iniciativa existia. Queria marcar uma entrevista, aceitamos e nos deixaram mais uma semana no vácuo. Imploramos por um sim ou não, só, aí eles disseram: não.

Das reportagens sobre a crise para o Opera Mundi, a maioria não mereceu nem uma notinha de “não vamos nos pronunciar” como resposta.

Mas fatídica foi a entrevista que marcamos para o Los Angeles Times e que o gabinete do Primeiro-Ministro ainda não disse se vai dar ou não. A oferta: uma página de pingue-pongue para o governo dar sua versão sobre o plano de austeridade da época – o primeiro dos 3 que já apareceram em 2010. A matéria mostrava como o arrocho arriscava matar o pouco da economia portuguesa produtiva e em crescimento. Saiu faz uns 4 meses e, por uns tempos depois, a oferta continuava em pé. A opção é sempre ficar quieto. Vai que ninguém viu, né?

À parte da críticas, fica o ministério da justiça, que ainda parece ter interlocutores do outro lado do email ou do telefone.

Pegamos carona, mas quem está falando é a OCDE. Vamos esperar p’a semana, se o Sócrates dizer qualquer coisa.

Mais uma reportada gonzo do sistema de saúde português. A saúde pública daqui funciona que é uma beleza. Mas parece que um bocadinho melhor se o gajo não for analfabeto.

o poético amanhecer de quem vai a um centro de saúde

Eram umas 7h, ventava buê (o “prá caramba” daqui) e o posto de saúde ainda não tinha aberto. Depois de três idas no horário certo, aprendi que sistema público de saúde deve ser igual até na China: sempre é preciso chegar antes de abrir. Estavam lá todos os velhotes na fila que dobrava a esquina na direção mais ventosa, como se diz por aqui. “Olá, bom dia, alguém para o doutor Rui? Ah, vai pegar duas senhas? Com mais aquele senhor, sou a quarta, consigo consulta.” Ia a velhota para fila. “Olá, bom dia, alguém da dra. Madalena?…” E ia dando certo a estratégia para saber se esperavam o centro abrir ou voltavam a dormir. “Isso se não houver alguém calado a fazer ouvidos moucos, que já me aconteceu a mim.”

Eu, que era dos sem-médico e não fiz o inquérito porque não estava me sentindo muito inserida, também consegui a consulta. Seria às duas da tarde. “Mas pode atrasar um pouco. Não por causa da doutora, mas por causa dos afazeres que dão a ela.” Paguei feliz meus 2,20 euros e voltei lá duas e dez. Deu três, três e tanto e nada. “Epá, mas a doutora então não vai me atender ou eu é que não estou a ouvir e deixei passar?” Deve estar nos outros afazeres.

Eram quase quatro quando chamou e, mal deu boa tarde, já foi logo perguntando qual era meu problema. Falei que eram as pintas. “Sim e veio fazer o que do Brasil aqui?” Contei e ela quis vê-las. “Tá, onde mais? Aham, só isso?” Eu já estava quase pedindo desculpas por importunar os afazeres dela com meus sinais – “pinta é outra coisa” – quando, depois de me perguntar de onde eu era – “ahn, do sul” – ela me disse porque ia me encaminhar para a consulta especial de sinais. “A gente percebe logo pela conversa que a menina tem outro nível, sabe falar, vem sabendo qual é seu problema e tem um problema. Com os analfabetos é diferente. Por isso e pelo histórico na família (meu pai teve câncer de pele, como já havia dito à médica)  vou lhe encaminhar à consulta específica. E bons estudos.”

Talvez se eu tivesse dito que tinha vindo fazer mestrado à atendente que fez o cadastro no centro de saúde, ela não tivesse me dito que eu não tinha direito a médico. É que no PB4 (convênio médico entre Brasil e Portugal) não avisam que diploma é pré-requisto para o atendimento médico completo.

Foi a pedido do inglês que o portuga malandrinho aprontou essa, lá nos anos 20 do século passado. A história toda e mais umas outras estão num texto que a gente fez para a edição deste mês da Superinteressante brasileira.

A Boca do Inferno, aqui, é um buracão marítimo em Cascais – terra de gente bronzeada na Área Metropolitana de Lisboa.  Como todo bom lugar turístico, tem plaquinha explicando tudo: onde ficam os banheiros, as principais maisons d’hôtes e, claro o lugar onde o mago tarado fingiu que tinha se jogado por amor a uma mulher escarlate.

Tão romântico, né?

O Pessoa – tem tanta menção ao homem aqui que qualquer um vira íntimo dele com uns dias em Lisboa – ainda tentou fazer uns cobres com o causo, mas não deu certo. Bobo ele. Mais esperto foi o Raulzito Seixas, que com o trololó de “Viva a Sociedade Alternativa” descolou uma graninha com outra das invenções do Crowley: “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”.  Desculpa aí, poeta, mas dessa vez a gente foi mais é na linha do Maluco Beleza

Foram 38 dias sem dar uns toques no blog. Começou – ou melhor, parou – em 30 de abril, quando a gente comentou as últimas bordoadas que atingiam os portugueses e como só o futebol dava um refresco.

Pois veio maio, teve a manifestação do dia 1, a primavera se instalou de vez na Europa, o vulcão peralta lá da Islândia sossegou um pouco, o governo português continuou a queda de braço com as agências de rating apertando a economia, a seleCÇão foi para a África do Sul, o fim do semestre letivo se aproximou e um misto de compromissos profissionais, pessoais e acadêmicos ocupou 100% da nossa memória RAM. O blog ficou nos bloquinhos de anotações, junto com entrevistas, endereços de hotel e de passeios, lembretes, rascunhos de ensaios, contas e aqueles zés-palitinhos que todo mundo faz quando precisa de uns minutos off-line de si mesmo. Pouco a pouco vamos passando o que interessa para cá para cá mesmo. Por isso, voltem a reservar uns cliques para nós, se faz favor.

Parte do sumiço passamos em quatro hostels em Londres e três hotéis de grandes redes em Portugal (Lisboa e Porto). Hospedados ou não, descobrimos que é nos pulgueiros que mais se conecta. Tudo bem que seja em troca de ficar sem café da manhã: pão se pode comprar em pacote, internet por dois dias, não.

Foto que ilustra a página de serviços e facilidades do Sana Lisboa

Em três dos albergues que ficamos, a rede sem fio era gratuita para todos – estivéssemos hospedados em quartos de 2 ou 12 pessoas. Já nos dois hotéis, só no desktop do saguão, com a fila de praxe. Aqui em Lisboa, uma das unidades da rede Sana tem chão de mármore, piano no lobby e um interminável kit de higiene pessoal de graça. Na recepção, as balinhas oferecidas aos hóspedes ficam em cristaleiras; mas a internet sem fio, só para quem pagar 5 euros por hora de acesso – ou 10 por 24 horas corridas. Vai ver os gerentes de hostels manjam que mochileiro não é lá muito fã de banho.

A internet aqui em Portugal está entre as mais caras dos países da OCDE –  a Organização Para Cooperação e Desenvolvimento Económico – e a do Reino Unido é a segunda mais barata. Albergue é mais barato que hotel quatro estrelas tanto aqui quanto lá. Coisas que só navegar entre extremos ensina.

Os valores são discutíveis e mudam com o passar do tempo, mas ve-los mudando e reagir bem a isso nem sempre é fácil. Os CDFs e mauricinhos vem sendo renegados há tempos – há uns 20 anos, quando estávamos na escola, não eram tão mal vistos como são hoje – tendo que se mimetizar em seres descolados porque ser sério é cada vez mais feio. Agora é a vez dos inteligentes e espertos, CDFs ou não, conforme decretou a Diesel.

Os populares bondinhos de Lisboa – os eléctricos, em bom português – estão circulando com um gigantesco “Be Stupid” à frente. Nas laterais, a explicação: “smart may have the brains, but the stupid has the balls”. Em miúdos: seja burro, guri, e a coragem virá. Ah é?

Cada vez que comentamos a propaganda de uma marca estamos dando publicidade gratuita e viral a ela: ou seja, a fazemos alcançar seu objetivo. Caímos direitinho. Boa, será que agora já podemos ter nossa cota de coragem?

A teoria da Diesel é que o impedimento da estupidez deprime o mundo e são os estúpidos os responsáveis pelas ideias, pelos pensamentos interessantes, são eles os seres brilhantes. Quisera eu saber antes que o ser humano é tão simples e a vida tão fácil.

Talvez o recado seja outro: seja burro o suficiente para usar frases de campanha publicitária como máxima e, assim, tome coragem para gastar 150 euros numa calça jeans acreditando que ela vai te fazer alguém melhor e apaixonante.

Como não fotografamos o bondinho, a foto que ilustra o post não é nossa nem de Lisboa, mas de Jerome, em São Francisco.

Levou mais de quatro meses, até a gente finalmente achar um lar em Lisboa. Em um prédio antigo, numa rua estreita, no centro e com espaço para estudar, trabalhar, cozinhar e até tomar sol na varanda dos fundos, com uma horta que a gente não pode usar mas que compõe a paisagem. Teríamos nosso quarto, sacadas e muita luz (artigo raro por aqui pois os cômodos costumam ser pequenos e internos) e um escritório numa casa de gente legal e adulta. Só faltava o recheio.
Mais umas semanas de garimpo, agora por móveis, e encontramos um belo caminho para montar uma casa legal gastando pouco, consumindo menos do que se pode e aprendendo mais do que se costuma.
Começamos a busca pelo tradicional jornal de vendas de objetos usados, o Ocasião. Vasculhamos a internet e encontramos diversos sites de móveis de segunda mão como o Coisas, Custo Justo e Olx e entramos no Freecycle, a comunidade de trocas em que dinheiro não entra.
O garimpo rendeu quarto e sala por pouco mais de 200 euros. De um casal que estava vendendo a casa para voltar ao Brasil compramos cama, colchão e estante por 130 euros. De um português que queria se desfazer do que restou de uma empresa que abriu e não conseguiu continuar, ficamos com duas cadeiras de diretor de empresa por 50 euros. Nossa escrivaninha classuda, a cômoda, o criado mudo e uma cama sofá (que ainda precisa de almofadas) custaram o preço da entrega: 25 euros. Teve ainda o gasto com uma arara, uma mesinha de centro, cabides, tapetes e velas que não chegaram a 30 euros.
Dizem que agora que o sol finalmente voltou a secar Lisboa começam a descartar nas calçadas móveis usados, aí o garimpo pode ser a céu aberto.
O gasto pequeno ainda deve dar oportunidade – e necessidade – de desenvolver dotes artísticos. A ideia é pintar a mobília de branco, arranjar uns tapetes e luminária e quando tudo estiver lindo e personalisado, voltamos para o Brasil e começamos tudo de novo por lá.

A teoria na prática

outubro 20, 2009

Não lembro o dia e nem as circunstâncias em que eu e o Vitor falamos pela primeira vez em morar fora do país, sei que foi em um boteco e um não foi levado a sério pelo outro.

Não pelo local, porque os importantes acontecimentos da nossa vida costumeiramente tem esse palco, mas por ser um tanto quanto improvável encontrar alguém com a mesma ideia de começar uma nova vida dando espaço para qualquer coisa, inclusive ter de dar uns passos atrás para mudar. Também tinha a grande dúvida de saber se nós mesmos estávamos falando sério e, caso tudo desse certo, não íamos amarelar.

A gente sabia que ia dar trabalho, mas nem tinha a pretensão de mensurar o quanto. Ia planejando – muitas vezes sem cumprir – dias de internato em busca de bolsas e cursos legais na internet, reduzia os gastos para engordar o pé de meia e ia indo. Começamos a ver que o plano era de verdade quando nosso computador passou a abrigar listas de documentos a serem conseguidos, fichas a serem preenchidas, datas a serem cumpridas. Nosso plano ganhou umas resmas de papel como corpo, e aí passamos a acreditar nele.

Um dos maiores aprendizados da gente nesse ano e pouco de busca de mestrado fora foi esse: a burocracia é uma constante. Não adianta lutar contar ela, mas convém ser o mais organizado possível para não deixá-la vencer. Foi assim para se candidatar ao mestrado aqui na Universidade Nova de Lisboa – e nos outros tantos que tentamos ou pensamos em -, para conseguir o visto, fazer a matrícula à distância, largar a vida em São Paulo e está sendo assim também para montar uma nova aqui.

Vamos escrever sobre cada uma das tragédias – sim, eu chorava e dizia que jamais seria possível chegar no fim – contar isso em detalhes esmiuçando as vergonhas que hoje fazem parte de nossa vida, a trabalheira que passamos e como teríamos feito se houvesse uma segunda vez – não, não!

Entre uma história e outra da cidade, do nosso dia a dia, vamos postar como chegamos  aqui – há uma semana.

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