Quem sugeriu foi o Financial Times, um dia antes do Dilmo e da Lula chegarem a Portugal: a solução para a terrinha aqui é se anexar ao Brasil. No duro. Tipo jangada de pedra, mas deixando os espanhóis para lá. Mais ou menos numa versão econô(ó)mica daquela fuga da corte portuguesa para o Rio no século XIX.

E não deu outra durante a visita da nossa corte à Metrópole: jornalista que se prezasse iria conseguir arrancar, de Cavaco, Dilma ou Sócrates a frase de que, sim, o Brasil vai comprar títulos da dívida de Portugal. Não vou dizer que não tentamos  – ou não teria havido  luta-livre entre imprensa e segurança nas portas da Universidade de Coimbra, no último dia 30.

Não adiantou. O Cavaco, na sua rouquidão serena, só fez comentários sobre o modo como era chamado de “ô, seu Cavaco” por uma brasileira. O Sócrates sorriu para as fãs. A Dilma, quando perguntei em bom português, se fez de boa búlgura. Um dia antes tinha dito que ia pensar no assunto, depois de o Lula insistir que o Brasil tem que dar uma mão aqui pros parente.

Vai depender da mão dela mesmo, pelo jeito, porque os bancos privados brasileiros não têm estado lá muuuito interessados em emprestar dinheiro para cá, seja para governo ou iniciativa privada. Mas estão um pouquinho. Primeiro, o copo meio cheio: de US$ 764 milhões em dezembro de 2007, a exposição de bancos brasileiros a portugueses – da corte ou fora dela – subiu para US$ 1,1 bilhão em setembro de 2010. Com crise e tudo!

Agora aquela visão sangue-no-zóio: proporcionalmente, os bancos brasileiros emprestavam aos portugueses, em setembro de 2010, menos do que em dezembro de 2007.

É, é o tal do amiguim da onça, ou do business as usual.

É brincadeira, gajada

março 10, 2011

Não vamos dar uma de brasileiros e manter aquele desânimo da quarta-feira de cinzas, pô.  Ânimo, rapaziada. Ou, Ânimo, gajada, para corromper uma palavra que não atravessou o Atlântico.

É assim mais ou menos que o premiê e o presidente de Portugal se referiram à juventude daqui, que está numa folga que eu vou te contar. Eita povinho que desocupado: o desemprego entre os 18 e os 25  está em 23%. É mais que o dobro da média nacional, de 11,2%, que já é recorde desde pelo menos uns 20 anos, quando ainda talvez se chamasse fila de bicha – algo que a imigração brasileira, parece, fez desaparecer.

Primeiro, para não perder a piada, foi o premiê: na terça-feira, interrompido durante um discurso por uns jovens que faziam protesto contra a falta de emprego, mandou lá: ” “Se me permitem, camaradas, eu gostaria de fazer um convite às pessoas que agora entraram para jantar connosco, não temos nenhum problema nisso. Somos um partido da tolerância, estamos no Carnaval e a verdade é que no Carnaval ninguém leva a mal.” Os seguranças dele é que parecem não ter ouvido o recado e botaram o bloco dos indignados na rua.

Ontem foi a vez do Cavaco, que se reelegeu no último dia 25. Quando nem bem a ressaca de ontem tinha passado, pediu que os jovens ajudassem Portugal a se tornar mais credível na cena internacional.  Para quem exagerou no lança-perfume, a terrinha aqui é dada como a próxima Irlanda, aquela que um dia foi a próxima Grécia.

E mais: mandou a galera remar, que nem fizeram que tornaram o país um império um tempinho – algumas revoluções, um Estados Unidos, uma China… – atrás . No duro: “Quando olhamos para estes jovens e quando olhamos para a imensidão do mar português estamos a olhar para o futuro de Portugal. Caros jovens, estou certo de que não ireis baixar os braços. Estou certo de que não se resignam. Portugal precisa de vós, Portugal conta convosco”, disse no navio-escola Sagres ontem.

Cadê a alegria nesses rostinhos?

Desculpem o mau-humor, mas é que passamos o carnaval numa gripe de lascar, trocando fantasia por pijama e cerveja por caldo verde.

Lisboa pronta a usar

dezembro 20, 2010

Em Lisboa, dar pernadas é o melhor passeio. Vira e mexe se encontra um miradouro, uma praça cheia de gente do mundo inteiro – e não só da Europa ocidental -, uma tasca (boteco) com gente mais fora do que dentro batendo um papo. Sempre com o Tejo prá compor a paisagem.

É uma beleza prá quem mora. Prá turista, então, nem se fala. E se prá turista é bacana, que dirá para quem vive de turista, né? Em Lisboa, 9% do PIB  vem do bolso da galera que veio comprar imã de geladeira, azulejo de galinho de barcelos, caldo knorr por haxixe e comer maravilhosamente bem.

Então é bom manter as coisas arrumadas para as visitas. É o que a Câmara Municipal (equivalente à prefeitura) está fazendo com a Baixa – o centrão de Lisboa -, principal destino turístico da cidade. Amanhã vai à votação um projeto que, diz, tenta fazer a região ficar mais jovem, mais movimentada, mais bem cuidada, mais organizada, mais cheia de comércio de luxo. Mais consumível, como diz um sociólogo daqui. Tanto que algumas ruas vão virar shopping a céu aberto – em São Paulo, a rua Oscar Freire, crème do comércio de rua no Brasil, faz uma coisa mais ou menos assim no Natal. Saiu uma matéria nossa no Estadão de ontem.

A ideia é dar um tapa nessas fachadas meio velhotas e noutras ainda piores

Aliás, vão fazer o mesmo em várias regiões da cidade, como Alfama e o Chiado. Bacana. Dá muito mais dinheiro ter um monte de apartamento para jovem ou turista do que para velho aposentado. Também é muito mais sossegado andar num bairro cheio de gente do que em ruas mortas como as da Baixa ficam à noite. E o mercado imobiliário, é claro, agradece a suspensão de leis que dificultem a realização de obras ou a compra e venda de imóveis.

Bacana também é ver como é que a galera que não é turista, não é jovem e não compra em comércio de luxo vai fazer para consumir essa cidade.

Ontem foi dia de greve geral em Portugal, a primeira desde 1988 feita pelas duas grandes centrais sindicais. Fomos para a rua fazer a cobertura — a Simone para O Globo, eu para o Opera Mundi.

Sem querer entrar  inevitável na guerra de números entre governo e sindicatos, deu prá ver que bastante gente parou. Não é todo dia que o metrô da capital de um país fica fechado durante um dia todo ou que as conexões entre um lado e outro do rio da cidade param completamente. Nem voando dava para sair de Lisboa: quase todos os voos – exceto um ou outro para os Açores e para a Madeira – foram cancelados.  “Fomos pá greve lutar pelo país”, botou num cartaz o dono de uma merceria aqui perto de casa.

ocê vê isso...

Caos? Filas intermináveis? As massas nas ruas? Nem por isso. Nessa semana, Lisboa vai ter dois sábados. Um foi ontem, em plena quarta-feira: serviços públicos fechados, pastelarias abertas. Além disso, não houve um grande protesto, como ocorreu em 29 de setembro ou em 1 de Maio.Todo mundo paradinho mesmo.

Estranho, né? “Êpá, eu sou português, mas juro que acho que morro sem entender os portugueses”, disse um amigo nosso.

A gente desconfiou lá em outubro, quando ligamos para as centrais sindicais para perguntar sobre qual era a programação da greve.  Um dos argumentos é que, sem transporte público funcionando, ia ficar difícil para o pessoal se deslocar até os locais da manifestação.

...e acredita nisso?

Houve até uns grupos que se reuniram ali na Praça Eduardo IV.  Tocaram música, bateram bumbo, levantaram cartazes, fizeram shows e sketches. A turistada se juntou aos jornalistas para fazer foto, um político ou outro fez discurso, e deu. A greve foi no piquete ou em casa.

“Não é que eu tô desempregado”, disse um brasileiro que não quis dar entrevista esses dias atrás, em Lisboa. “Meu patrão me chama quando tem obra. Então eu tô esperando ele me chamar. Não tô desempregado.”

É que nem o outro que dizia coisa parecida à época da Copa do Mundo. Tem emprego em Portugal? Sim. “Põe aí que sou chapa” – aqueles que ajudam a descarregar caminhões – na região do Martim Moniz, a china-bangla-town de Lisboa.

O Eliomar, que está na matéria do G1 que fizemos sobre a situação dos brasileiros por aqui, largou mão da vaga de funcionário da limpeza que tinha conseguido. Não sobrava dinheiro prá mandar pro lado daí do Atlântico. Agora, preparando e entregando quentinhas, até que tá dando. Não tá desempregado.

A matéria trata dos que realmente estão — com dados de uma baita pesquisa feita por três universidades portuguesas com a comunidade brasileira. Foram ouvidos 1.398, entre janeiro e junho de 2009. Descontados estudantes, aposentados e outros considerados inativos, o desemprego era de 17,7%. No geral, em Portugal, estava na casa dos 9%. No Brasil, estava em 7% nas seis regiões metropolitanas onde o IBGE faz a Pesquisa Mensal de Emprego.

Nos últimos dez anos, Portugal vem se tornando uma alternativa mais difícil para os brasileiros em busca de fazer a vida no estrangeiro. De lá para cá, a coisa evoluiu mais ou menos assim (mais ou menos porque há diferenças metodológicas entre uma pesquisa e outra):

Com a pisada no breque que o governo português vai dar na economia para 2011, o laranjinha aí não parece que vai inverter a tendência, não. Até lá, a gente tá aqui prá contar.

 

Amanhã cedinho (ou já já, no horário daqui), o governo português vai ser julgado no Tribunal de Justiça Europeu por impedir, no entender da Comissão Europeia, a livre circulação de capitais. De novo e não é a última vez.

O caso amanhã está ligado ao bafafá do momento entre os vizinhos ibéricos: a compra, pela Telefónica, da parte que a Portugal Telecom tem  na Vivo aí do Brasil. Os espanhóis ofereceram 7,15 bi de euros e a maioria dos acionistas topou, mas o governo português vetou. É essa possibilidade de apitar – que na tradução para o inglês vira golden share e para o economês, ações privilegiadas – que a Comissão Europeia quer tirar do Estado da terrinha.

Portugal é o país com mais processos contra o uso da golden share no Tribunal europeu: três de 11. Além do da PT, um da Galp (de petróleo) e outro da EDP (Energias de Portugal) que ainda aguardam julgamento. Fora isso,  foi condenado duas vezes por usar mecanismos de botar o pé na janta: em 2002, por ter uma legislação que impede a participação, em empresas privatizadas, de estrangeiros acima de um determinado limite; e em 2004, por bloquear a compra de até 100% da Cimpor (de cimentos) pela Secil (espanhola, mas detida por uma empresa portuguesa) e a Holderbank (suíça).

Mas, talvez influência da convivência, os espanhóis também levaram lá seu pito: em um processo, em 2003, o TJ condenou o governo dos hermanos dos gajos por manter golden shares na Repsol (petróleo) na própria Telefónica e na Telefónica Servicios Móviles, no Argentaria (banco), na Tabacalera (tabaco) e na Endesa (energia).

A gente fala pito porque, embora condene, a Comissão Europeia não tem como mudar as leis de um Estado-Membro. No limite, no limite, pega pelo bolso, aplicando sanções pecuniárias.

Mesmo mal das pernas e pagando juros maiores que os da Grécia, o crescimento da economia portuguesa não está lá tão baixo quanto as más notícias vindas das agências de rating e os consequentes planos de cortes de gastos podem fazer crer. Mas – somos jornalistas, lembram? –, se a notícia é boa, vem acompanhada de uma ruim: a coisa pode piorar.

A imprensa portuguesa publicou hoje uma matéria sobre esse assunto, na onda da revisão do PIB do primeiro trimestre (que só ela renderia outro post, já que a revisão foi por mudança de forma de cálculo); na semana passada a gente produziu uma reportagem sobre isso para o Los Angeles Times.

O desempenho positivo vem dos números da Eurostat. No primeiro trimestre do ano, Portugal foi o quarto país que mais cresceu na zona do euro: foram 1,7%, bem acima da média dos membros (0,5%). Um belo resultado para um país ancorado na família. É nelas que se busca alívio para as quedas de rendimento e são também as donas da maior parte das pequeninas empresas que movem Portugal.

Se a gente olhar para o Brasil a discussão parece deslocada, já que o crescimento foi de 9% no primeiro trimestre desse ano, segundo o IBGE. Se olharmos para Portugal no ano passado, ela se enfraquece mais um bocado porque o crescimento é sobre um período ainda menos estimulante. Se o foco for o plano de austeridade divulgado no começo do mês, o presente pode ser  alentador e o futuro, fadista.

O resumo do fado. O governo português deu aquela espremida para ver se sai um caldo, mas pode é enfiar o pé no breque. Para já, aumentou o imposto de renda para pessoas físicas e jurídicas. A  partir de julho, elevará  também o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), que pega o consumo – de pastel de nata para cima. Os empréstimos ficarão mais caros por causa do aumento do imposto do selo pago nessas operações.

Não fosse a seleção daqui subir para um histórico terceiro lugar no ranking da Fifa, a semana portuguesa estaria daquelas de azedar o vinho e por sal no pastel de nata.

Desde segunda-feira os transportes e os correios estão sendo afetados por paralisações de funcionários. O governo do socialista José Sócrates, bola da vez da crise na União Europeia, congelou os reajustes salariais para servidores, incluindo os de empresas públicas, e desencadeou a grita.

A coisa pegou mais na terça-feira, quando foram afetados trens, barcos e ônibus – e de quebra, quem usa carro. Justamente no mesmo dia a Standard & Poor’s resolveu rebaixar a classificação dos papéis portugueses para o menor nível desde que as avalições do país começaram, em 1991. Para o governo e os meios de comunicação daqui, o senso de oportunidade da S&P é chamado sem rodeio de ataque à economia portuguesa. A agência ainda sugere que o governo aumente impostos para dar conta dos encargos.

A nossa matéria está no Opera Mundi.

Ainda bem que no futebol vai tudo nos conformes.

Prá quem tem senso de oportunidade, é mais fácil ganhar dinheiro com a nuvem de cinza do que pronunciar o nome do vulcão islandês que pregou uma peça formidável na Europa na semana passada. Assim como jornalista, coveiro, banqueiro e por aí vai, tem quem está tirando algum com a desgraça alheia. Afinal, tem gente que não pode parar.

É só dar uma olhada nos sites de carona (boleia, no português daqui). De eco-friendly e low-cost, viajar no carro de alguém virou negocião de primeira quando se tornou, praticamente, a única opção de transporte do velho continente.

No Deboleia.com, os anúncios “procuro alguém para dividir custos” estão dividindo espaço com os de “Condutor profissional. Segurança e conforto. Valores a acordar”. Uma das ofertas é: por 1.500 euros, é possível desfrutar o prazer de dezesseis horas sentado(a) de Lisboa a Paris (uma passagem da TAP na classe executiva sai por 580 euros, mais ou menos). Outro está fazendo um leilão para levar quem pagar mais de Portugal para qualquer lugar da europa.

A nossa matéria está no Opera Mundi.

Eu não tenho medo deles

março 26, 2010

Basta pedir uma informação na rua para sentir a diferença em relação ao Brasil. Seja velho, novo, homem ou mulher, o cidadão para o que está fazendo, desloca-se, aponta, repete incansavelmente a informação e às vezes até vai lhe cuidando com o olhar para ver se você vai mesmo pelo caminho certo. Tudo com um sorriso no rosto. Isso em Lisboa, que apesar de pequena, é uma metrópole, terra de gente áspera. Em São Paulo é raro encontrar um tipo assim.

Mas na hora de dar uma entrevista a coisa muda. O fato de sermos brasileiros e vivermos em busca de personagens sofridos com a crise contribui, mas vai além. Se o gajo resolver falar, certamente que será depois de ver o documento de identificação.

Vista a carteira de jornalista eles costumam se abrir. Detalham a vida, criticam o governo, opinam sobre a crise atual e a que o país enfrenta a mais tempo. Falam de si e dos portugueses. Mas quando é a vez de a gente pedir alguma identificação… Conseguir um nome exige um novo processo de convencimento. E tirar uma foto? Tarefa difícil.

A ditadura salazarista acabou em 1974, depois de quase 50 anos. Dizem que a suspeição ficou. Dia desses, fomos alertados sobre haver fotos nossas neste subversivo e perigoso blog:  “cuidado que isso aqui é o país da Pide (polícia política do antigo regime), hein?” Foi um tempo de desconfiança instalada, em cada um era um fiscal do regime, instado a dedurar opiniões e condutas estranhas do vizinho. Parece estar no imaginário até hoje.

“Eu não tenho medo deles, mas meu nome não quero dar”,  diz um aposentado, depois de quase uma hora de conversa, no centro de Lisboa. Tinha até me ensinado a versão lusitana de alguns palavrões, indignado com a penalização dos “mais pequenos” (desempregados e aposentados) com o pacote anticrise formulado pelo governo.

Mas “eles” não assustam todo mundo. Nossa matéria sobre as medidas está no OperaMundi, com foto.

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