Otan quer fazer amigos

novembro 20, 2010

Termina hoje aqui em Lisboa a Cúpula da Otan. Além de anunciar, como fez há pouco, que vai sair do Afeganistão até 2014, o outro ponto forte da reunião é a amizade, política e virtual.

Ontem foi apresentado o Novo Conceito Estratégico, que dá para ver aqui. É o planão da organização para os próximos 10 anos.
Proteção próximo rua próximo à Cúpula da Otan: assim fica meio agressivo para fazer amizade, não?
Dá uma olhada ali pelo ponto 27 em diante. Prá quem tá com preguiça, aqui vão algumas frasezinhas: “a porta para se tornar membro da Otan está totalmente aberta para todas as democracias europeias”; a segurança da aliança “é melhor assegurada por uma larga rede de parcerias com países e organizações em torno do globo”; “diálogo e cooperação com parceiros podem fazer uma contribuição concreta para a segurança internacional”; “essas relações vão ser baeadas em reciprocidade, benefício e respeito mútuos”. A gente fez uma matéria sobre isso para a CartaCapital. Qué bincá?

E se a instituição tá assim, quem manda não vai estar diferente, né? E onde é que a gente faz amigo hoje? “Please friend me”, foi uma das frases que Almirante James Stavridis, chefão militar da Otan na Europa, usou para abrir a palestra que deu na Cúpula dos Jovens Atlanticistas. Uma projeção do logo do Facebook foi usada para fechar. Também, o homem tá com 5.498 amigos só na conta. O chefe dele, o secretário-geral Anders Fogh Rasmmussen, tem 61.300. O numero foi uma das primeiras coisas usadas para apresentá-lo antes da palestra que deu no mesmo evento – ficou em segundo plano o fato de ele ter sido primeiro-ministro da Dinamarca e hoje ser o comandante da maior aliança militar do mundo e tudo o mais. Vai falar que, popular assim, vc também não mencionava isso no CV?

O anônimo do outro mundo

novembro 11, 2010

Da cabine do Rafael

Nossa busca obcecada pelo mundo do outro teve um alento quando encontramos os blogs do motorista do eléCtrico 28 e da menina que serve mesas no Chiado. Em comum, jornalismo e sociologia têm a tentativa de acessar o mundo do outro e, lá de dentro, ver a vida pelos olhos dele. Estávamos feitos e surpresos de espiar tão de perto.

Ela é a ácida Vera Agostinho, mas pode chamá-la “Pssht, ó menina“. Rafael Santos é um guarda-freios de bonde apaixonado o suficiente para manter um “Diário do Tripulante“.  (Quase) sem pudor, os dois abrem a porta de seu dia a dia de labuta, desaforos e diversão e nos convidam a entrar. Sentei, tirei o sapato e contei a história deles na Brasiliana da Carta Capital — que virou Portuguesa por conta deles.

Vera na cozinha

Por inspiração — caso do Rafael — ou coincidência — da Vera — eles fazem parte de um movimento que tem pelo menos mais um integrante, uma caixa de supermercado na França que também resolveu contar suas mazelas diárias em blog. Eles defendem que são qualquer um, mas pela forma como olham para sua vida banal e pela proximidade que nos deixam chegar, perdem o tão divulgado anonimato.

Um dia a dia tão distante ou invisível se torna claro, óbvio, digno de uma olhada de igual para igual.

Saiu na semana passada, na edição 620. Vai que o dono da banca guardou um exemplar prá ele e topa vender.

Arroios é um dos bairros da região central de Lisboa com maior proporção de brasileiros. é um grupo, mas em situações muito diferentes uns dos outros.

Em busca de brasileiros que estivessem fazendo o caminho de volta para o Brasil, para o OperaMundi, fomos para as ruas do bairro. A ordem era parar qualquer um que falasse brasileiro e entrar em todas as lojas de produtos nacionais e quaisquer salões de cabeleireiro — pelo menos nessa região de Lisboa, o serviço é monopólio tupiniquim. “Brasileiro voltando? Nunca ouvi alguém falando isso. Mas será que tem mesmo?” Foi a resposta em dois salões diferentes. Em um destes, ninguém ia, mas todo mundo quis saber sobre. Parecia que, subitamente, algo em que evitavam pensar se tornou permitido.

Virando uma esquina, encontramos Graça, que não só ia voltar como contou que o namorado e os quatro companheiros de apartamento estavam de viagem planejada. Era passar uma meia hora conversando na loja e esperar: quase todas as clientes que apareciam estavam voltando. Atravessando a Avenida Almirante Reis, que divide o bairro, encontramos mais grupos com o retorno marcado.

As atendentes de um mercadinho deram o endereço de um cliente que estava voltando e avisaram que não era o único da casa. Por 24 horas, não o conhecemos. “A essa hora ele deve estar chegando no Brasil”, disse o senhorio ao abrir a porta. No mesmo apartamento, havia outras duas meninas programando viagem, mas nenhuma concordou em falar. Provavelmente se sentindo culpada de combinar a foto e mandar SMS para desmarcar, uma delas passou quase dez telefones de brasileiros a caminho de casa.

A deteminada hora da noite, recebemos até ligação oferecendo entrevista. “Oi, vocês estão fazendo reportagem sobre quem está voltando, né? Uma amiga me passou o telefone. Eu estou.”

A diferença de votos do 1º para o 2º turno em Portugal sugere que os eleitores da Marina foram de Serra ontem (a cobertura que fiz está no G1 aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Como deu para saber disso antes de iniciada a apuração no Brasil, a dúvida se colocou: e se a coisa for no mesmo caminho no Brasil? O pessoal do PT que acompanhava a votação na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (também houve no Porto) deu uma coçada na cabeça. Do PSDB não tinha ninguém visível.

O Serra aqui deslanchou do dia 3 para o dia 31 de outubro, enquanto a Dilma deu umas remadinhas só. Na verdade, duas: foi de 56% para 58%. O tucano foi de 29% para 42%. São 13 a mais. Como a Marina no 1º turno ficou com 14% – e os números totais de votos não se alteraram lá muito entre uma votação e outra -, é de se supor que quem foi de Avatar aqui, depois preferiu o  Nosferatu à Mônica.

Os dados do 1º turno são do TSE. Os do 2º são apuração própria.

“Não é que eu tô desempregado”, disse um brasileiro que não quis dar entrevista esses dias atrás, em Lisboa. “Meu patrão me chama quando tem obra. Então eu tô esperando ele me chamar. Não tô desempregado.”

É que nem o outro que dizia coisa parecida à época da Copa do Mundo. Tem emprego em Portugal? Sim. “Põe aí que sou chapa” – aqueles que ajudam a descarregar caminhões – na região do Martim Moniz, a china-bangla-town de Lisboa.

O Eliomar, que está na matéria do G1 que fizemos sobre a situação dos brasileiros por aqui, largou mão da vaga de funcionário da limpeza que tinha conseguido. Não sobrava dinheiro prá mandar pro lado daí do Atlântico. Agora, preparando e entregando quentinhas, até que tá dando. Não tá desempregado.

A matéria trata dos que realmente estão — com dados de uma baita pesquisa feita por três universidades portuguesas com a comunidade brasileira. Foram ouvidos 1.398, entre janeiro e junho de 2009. Descontados estudantes, aposentados e outros considerados inativos, o desemprego era de 17,7%. No geral, em Portugal, estava na casa dos 9%. No Brasil, estava em 7% nas seis regiões metropolitanas onde o IBGE faz a Pesquisa Mensal de Emprego.

Nos últimos dez anos, Portugal vem se tornando uma alternativa mais difícil para os brasileiros em busca de fazer a vida no estrangeiro. De lá para cá, a coisa evoluiu mais ou menos assim (mais ou menos porque há diferenças metodológicas entre uma pesquisa e outra):

Com a pisada no breque que o governo português vai dar na economia para 2011, o laranjinha aí não parece que vai inverter a tendência, não. Até lá, a gente tá aqui prá contar.

 

Tem que o mercado precisar de informação e não conseguir para se perceber que há algo de errado não com a gente, mas com a política de comunicação do governo português. Como a gente sempre reclama em mesa de boteco e não publica as pancadas, aproveitamos o puxão de orelha dado pela OCDE para desenterrar todos os sufocos passados com o governo daqui.

Um dos primeiros foi uma matéria fofa que fizemos sobre o Pedibus, um ônibus humano que leva crianças caminhando para a escola. A Câmara (equivalente à prefeitura) de Lisboa levou um mês para responder a um email perguntando se a iniciativa existia. Queria marcar uma entrevista, aceitamos e nos deixaram mais uma semana no vácuo. Imploramos por um sim ou não, só, aí eles disseram: não.

Das reportagens sobre a crise para o Opera Mundi, a maioria não mereceu nem uma notinha de “não vamos nos pronunciar” como resposta.

Mas fatídica foi a entrevista que marcamos para o Los Angeles Times e que o gabinete do Primeiro-Ministro ainda não disse se vai dar ou não. A oferta: uma página de pingue-pongue para o governo dar sua versão sobre o plano de austeridade da época – o primeiro dos 3 que já apareceram em 2010. A matéria mostrava como o arrocho arriscava matar o pouco da economia portuguesa produtiva e em crescimento. Saiu faz uns 4 meses e, por uns tempos depois, a oferta continuava em pé. A opção é sempre ficar quieto. Vai que ninguém viu, né?

À parte da críticas, fica o ministério da justiça, que ainda parece ter interlocutores do outro lado do email ou do telefone.

Pegamos carona, mas quem está falando é a OCDE. Vamos esperar p’a semana, se o Sócrates dizer qualquer coisa.

Nós somos vocês

outubro 8, 2010

Quando uma espanhola estranha algumas cenas do cotidiano entre portugueses e brasileiros aqui, dá uma sensação de alento. Afinal, talvez não seja só maldade nossa. “Eles sempre fazem isso, sempre conversam dessa forma?”

De um modo geral, sim, ao menos entre desconhecidos. Numa pastelaria, há quase um ano atrás, quando recém tínhamos pisado em Lisboa, compramos um doce. “Como vocês chamam isso aqui?”, pergunta o balconista mostrando pimenta-do-reino. “Isto aqui é pimenta, vocês chamam do reino porque vinha daqui, do reino.” Ficamos em dúvida entre nos irritar com o espírito colonizador ou simpatizar com a aula de história do cotidiano.

Dias atrás, um ano depois, veio o episódio testemunhado pela espanhola. A conversa com o velhote, que durou cinco minutos, era sobre a banda portuguesa que ia tocar em um festival em Alvaiázere, os Galandum Galundaina. Descambou para a eleição brasileira que seria no dia seguinte e, não perguntem como, acabou em: “mas uma coisa vocês têm de admitir, fomos nós que mantivemos as fronteiras actuais do Brasil.”

Mentira, não acabou aí porque até houve espaço para um diálogo e um final melhor ainda. “Mas por que veio estudar cá? O Brasil tem universidades tão boas já.” Às vezes parece que gostamos mais daqui que os próprios.

É a versão rua da pesquisa que detectou atitudes colonizadoras no Second Life.

E como generalizar é sempre besteira, o próximo post será sobre as relações contrárias. Tem uma galera aqui que só falta tatuar o mapa do Brasil na lomba.

Domingão passado fui lá fazer a cobertura das Eleições 2010 em Lisboa para o G1. De 2006 para cá, Portugal virou um dos maiores colégios eleitorais fora do Brasil, com 23 mil eleitores. Lisboa, com 12,4 mil, só perdia para Nova York entre as 154 cidades que teriam votação. Porto, com 10,8 mil, ficava em 4º, acima de – juro – Miami.

Mas domingão é muito mais domingão quando cai no meio de um feriado: hoje aqui comemora-se o Dia da República. Não bastasse isso, o interminável sol lisboeta resolveu tirar uma com a cara de quem venceu essa maldade, pegou o titulo de eleitor e, triunfal ou não, foi às urnas. Um parêntese aos portugueses: um dos poucos documentos que um não serve para votar, dentro ou fora do Brasil, é o título de eleitor. Disso a Maitê Proença não tira sarro, né?

Choveu prá dedéu. E a chuva, em dia de eleição, também causa tragédias. Para aqueles de estômago forte e capa de plástico resistente, cenas fortes direto da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde ocorreu a votação…

Vai ver por isso a abstenção foi de cerca de 60%.

Mais uma reportada gonzo do sistema de saúde português. A saúde pública daqui funciona que é uma beleza. Mas parece que um bocadinho melhor se o gajo não for analfabeto.

o poético amanhecer de quem vai a um centro de saúde

Eram umas 7h, ventava buê (o “prá caramba” daqui) e o posto de saúde ainda não tinha aberto. Depois de três idas no horário certo, aprendi que sistema público de saúde deve ser igual até na China: sempre é preciso chegar antes de abrir. Estavam lá todos os velhotes na fila que dobrava a esquina na direção mais ventosa, como se diz por aqui. “Olá, bom dia, alguém para o doutor Rui? Ah, vai pegar duas senhas? Com mais aquele senhor, sou a quarta, consigo consulta.” Ia a velhota para fila. “Olá, bom dia, alguém da dra. Madalena?…” E ia dando certo a estratégia para saber se esperavam o centro abrir ou voltavam a dormir. “Isso se não houver alguém calado a fazer ouvidos moucos, que já me aconteceu a mim.”

Eu, que era dos sem-médico e não fiz o inquérito porque não estava me sentindo muito inserida, também consegui a consulta. Seria às duas da tarde. “Mas pode atrasar um pouco. Não por causa da doutora, mas por causa dos afazeres que dão a ela.” Paguei feliz meus 2,20 euros e voltei lá duas e dez. Deu três, três e tanto e nada. “Epá, mas a doutora então não vai me atender ou eu é que não estou a ouvir e deixei passar?” Deve estar nos outros afazeres.

Eram quase quatro quando chamou e, mal deu boa tarde, já foi logo perguntando qual era meu problema. Falei que eram as pintas. “Sim e veio fazer o que do Brasil aqui?” Contei e ela quis vê-las. “Tá, onde mais? Aham, só isso?” Eu já estava quase pedindo desculpas por importunar os afazeres dela com meus sinais – “pinta é outra coisa” – quando, depois de me perguntar de onde eu era – “ahn, do sul” – ela me disse porque ia me encaminhar para a consulta especial de sinais. “A gente percebe logo pela conversa que a menina tem outro nível, sabe falar, vem sabendo qual é seu problema e tem um problema. Com os analfabetos é diferente. Por isso e pelo histórico na família (meu pai teve câncer de pele, como já havia dito à médica)  vou lhe encaminhar à consulta específica. E bons estudos.”

Talvez se eu tivesse dito que tinha vindo fazer mestrado à atendente que fez o cadastro no centro de saúde, ela não tivesse me dito que eu não tinha direito a médico. É que no PB4 (convênio médico entre Brasil e Portugal) não avisam que diploma é pré-requisto para o atendimento médico completo.

Com essa década não se brinca, então talvez seja mais prudente dizer que PODE ser um sinal.

Era para ser uma tardezinha tranquila de ranchos folclóricos portugueses na Praça da Figueira, no centro histórico de Lisboa, mas foi bem mais criativo (olha!).

Todo mundo que saiu para a rua nos últimos 5 anos já se perguntou, algum dia, o porquê dos anos 80 teimarem por aí. Mesmo quem não saiu provavelmente ouviu o vizinho descobrindo o Master of Puppets do Metallica (nosso caso!) ou o Like a Virgin da Madonna. Num evento de bandas prá frentex em Londres, no finado Bardens Boudoir, a galera curtiu um show que parecia a versão inglesa do Clara Crocodilo, da Sabor de Veneno. Inclusive as duas meninas que estavam de blazer verde com ombreiras.

A gente não foi fazer foto da banda porque tamo velho demais para o burburinho. Fica o carrinho de churros

Por aqui não é diferente, mas a Praça da Figueira deu uma luz. Era aí pela meia noite e os ranchos folclóricos com suas canções tradicionais já estavam rumando nos veículos fretados pros Alentejos, Minhos e Algarves, provavelmente. Sobraram o quiosque de cervejas, um trailer vendendo churros e porras e o palco. Lá em cima, um quinteto que tinha entre os 12 (o tecladista) e os 17 (a vocalista), mandando brasa num repertório de clássicos do pop. Da década passada: “This Love”, do Maroon Five, que a novela Senhora do Destino bombou no Brasil, é de 2002.

Tinha lá umas 150 pessoas swingando com o som dos guris, o suficiente para deixar uma parte da cidade baixa viva durante a noite. O bastante também prá gente ver que essa de revival dos 80’s, galera, tá ficando quadrado demais da conta. Coisa de quem pega os fretados mais cedo.

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