Ontem foi dia de greve geral em Portugal, a primeira desde 1988 feita pelas duas grandes centrais sindicais. Fomos para a rua fazer a cobertura — a Simone para O Globo, eu para o Opera Mundi.

Sem querer entrar  inevitável na guerra de números entre governo e sindicatos, deu prá ver que bastante gente parou. Não é todo dia que o metrô da capital de um país fica fechado durante um dia todo ou que as conexões entre um lado e outro do rio da cidade param completamente. Nem voando dava para sair de Lisboa: quase todos os voos – exceto um ou outro para os Açores e para a Madeira – foram cancelados.  “Fomos pá greve lutar pelo país”, botou num cartaz o dono de uma merceria aqui perto de casa.

ocê vê isso...

Caos? Filas intermináveis? As massas nas ruas? Nem por isso. Nessa semana, Lisboa vai ter dois sábados. Um foi ontem, em plena quarta-feira: serviços públicos fechados, pastelarias abertas. Além disso, não houve um grande protesto, como ocorreu em 29 de setembro ou em 1 de Maio.Todo mundo paradinho mesmo.

Estranho, né? “Êpá, eu sou português, mas juro que acho que morro sem entender os portugueses”, disse um amigo nosso.

A gente desconfiou lá em outubro, quando ligamos para as centrais sindicais para perguntar sobre qual era a programação da greve.  Um dos argumentos é que, sem transporte público funcionando, ia ficar difícil para o pessoal se deslocar até os locais da manifestação.

...e acredita nisso?

Houve até uns grupos que se reuniram ali na Praça Eduardo IV.  Tocaram música, bateram bumbo, levantaram cartazes, fizeram shows e sketches. A turistada se juntou aos jornalistas para fazer foto, um político ou outro fez discurso, e deu. A greve foi no piquete ou em casa.

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Não fosse a seleção daqui subir para um histórico terceiro lugar no ranking da Fifa, a semana portuguesa estaria daquelas de azedar o vinho e por sal no pastel de nata.

Desde segunda-feira os transportes e os correios estão sendo afetados por paralisações de funcionários. O governo do socialista José Sócrates, bola da vez da crise na União Europeia, congelou os reajustes salariais para servidores, incluindo os de empresas públicas, e desencadeou a grita.

A coisa pegou mais na terça-feira, quando foram afetados trens, barcos e ônibus – e de quebra, quem usa carro. Justamente no mesmo dia a Standard & Poor’s resolveu rebaixar a classificação dos papéis portugueses para o menor nível desde que as avalições do país começaram, em 1991. Para o governo e os meios de comunicação daqui, o senso de oportunidade da S&P é chamado sem rodeio de ataque à economia portuguesa. A agência ainda sugere que o governo aumente impostos para dar conta dos encargos.

A nossa matéria está no Opera Mundi.

Ainda bem que no futebol vai tudo nos conformes.

O governo português  está na luta para tirar o país do acrónimo PIIGS, aquela brincadeirinha dos analistas de mercado com Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha. O país precisa dos cobres dos investidores para bancar uma dívida pública que vai chegar a 90% do PIB em 2011. Numa espécie de material publicitário, o órgão oficial de administração dos títulos públicos avisa que Portugal vai :

1. Congelar salários de servidores

2. Reduzir o número de funcionários públicos

3. Racionalizar custos de saúde

4. Aplicar uma fórmula de reajuste nas aposentadorias calculada a partir da inflação e do crescimento do PIB que, se tivesse sido usada no ano passado, tinha reduzido os benefícios dos velhotes

Imagem é tudo numa hora dessas, e o problema é que os funcionários públicos não querem ajudar, não. Igual ao que os gregos fizeram, preparam greve geral para a próxima quinta, 4 de março. A nossa matéria está no OperaMundi.

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