Portugal tem um problema noticioso quando trata-se de rádios de notícias – ou a gente tem um problema noticioso com as rádio de notícias de cá: fora a RTP, que é a pública, tem uma. Indiscutível que isso prejudica a diversidade de opiniões e de enfoques, blá blá blá, mas felizmente garante uma boa dose de diversão. Se a cobertura às vezes peca pela falta de isenção, as vinhetas não permitem que a audiência tire o sorriso do rosto.

Lá estava você quase se irritando com a âncora do jornal a dizer que o que se via na praça central grega eram atos de puro vandalismo e entra essa vinheta aqui:  “As conversas são como as cerejas. No regresso a casa, vêm umas atrás das outras. Sempre inesperadas.” Ahn?! Será um programa sobre cerejas? Não, é um ditado português sobre começar e não parar mais. Pronto, pode se acalmar.

Tá, pode ser mesmo algum hiato cultural entre as referências das vinhetas e nossa capacidade de compreensão. Mas e o grito de Tarzan numa que narra uma série de grandes acontecimentos da humanidade? É como a imagem do homem chegando à lua seguida da de um unicórnio… Vai ver que é porque foram até a França fazer uma reportagem da radio sobre o campeonato de gritos de Tarzan. Mas, por via das dúvidas, mandamos um e-mail para entender e assim que vier a resposta, botamos aqui.

Na lista de mais algumas sacadas enigmáticas há a voz solene e por vezes aterrorizante do narrador. Ele anuncia um programa sobre melões, uvas, chouriços em pacatas cidadezinhas do interior de Portugal e você jura que é um documentário sobre mortes em série na zona rural.

E ainda o título de uma reportagem interessante sobre como quem é cego de nascença vê o mundo: “vermelho da cor do céu”.

O slogan da rádio é “do fim da rua ao fim do mundo”. Há várias reportagens sobre o fim da rua no site – até um blog. De fim do mundo, nada…. A-há, fim do hiato cultural. É na Argentina! E não é no estádio do River Plate. Eles é que disseram quando tentaram materializar isso nos 20 anos da rádio, mandando um repórter para a capital da província da Terra do Fogo, a cidade mais austral, conhecida precisamente como o fim do mundo.

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Tem que o mercado precisar de informação e não conseguir para se perceber que há algo de errado não com a gente, mas com a política de comunicação do governo português. Como a gente sempre reclama em mesa de boteco e não publica as pancadas, aproveitamos o puxão de orelha dado pela OCDE para desenterrar todos os sufocos passados com o governo daqui.

Um dos primeiros foi uma matéria fofa que fizemos sobre o Pedibus, um ônibus humano que leva crianças caminhando para a escola. A Câmara (equivalente à prefeitura) de Lisboa levou um mês para responder a um email perguntando se a iniciativa existia. Queria marcar uma entrevista, aceitamos e nos deixaram mais uma semana no vácuo. Imploramos por um sim ou não, só, aí eles disseram: não.

Das reportagens sobre a crise para o Opera Mundi, a maioria não mereceu nem uma notinha de “não vamos nos pronunciar” como resposta.

Mas fatídica foi a entrevista que marcamos para o Los Angeles Times e que o gabinete do Primeiro-Ministro ainda não disse se vai dar ou não. A oferta: uma página de pingue-pongue para o governo dar sua versão sobre o plano de austeridade da época – o primeiro dos 3 que já apareceram em 2010. A matéria mostrava como o arrocho arriscava matar o pouco da economia portuguesa produtiva e em crescimento. Saiu faz uns 4 meses e, por uns tempos depois, a oferta continuava em pé. A opção é sempre ficar quieto. Vai que ninguém viu, né?

À parte da críticas, fica o ministério da justiça, que ainda parece ter interlocutores do outro lado do email ou do telefone.

Pegamos carona, mas quem está falando é a OCDE. Vamos esperar p’a semana, se o Sócrates dizer qualquer coisa.

Acharam em setembro

Encontraram nessa semana

Vocês viram direito. Aqui no caso, o culpado não é o açúcar, mas a versão portuguesa da Focus Magazin –  alemã –, que achou a matéria, a capa e o título da Veja tão bons a ponto de copiar. A versão brasileira é de setembro do ano passado, a portuguesa chegou às bancas na última quinta, junto com aquele sentimento de “sou eu que estou cansado ou já passei por essa banca hoje e nem percebi?”.

 A cópia ainda carrega um logo semelhante ao da revista Época, da editora Globo, que já manteve parceria com a Focus alemã. Ver lado a lado as duas principais rivais no mercado editorial semanal brasileiro – pelo menos seus logos – com matéria idênticas é simbólico do império da lei do mínimo esforço no jornalismo.
 
A Focus não tem versão online e  2,75 euros dá para uns três pastéis de nata quentinhos, com açúcar novo. Então não comparamos os textos, mas dá para tirar uma ideia da reportagem pelas linhas de apoio das capas:

  • Veja: Ele é o vilão da “globesidade”, a epidemia mundial de obesidade mórbida, o maior desafio da humanidade no século XXI.
  • Focus: Trave esta epidemia e saiba como os especialistas estão a tratar a obesidade
  • A abertura da matéria brasileira corrobora: “Nos EUA, especialistas em saúde e nutrição começam a tratar o açúcar com o mesmo rigor que isolou o tabaco do convívio social”

 Parece pouco provável que a Veja tenha licenciado a matéria para a Focus portuguesa, mas por via das dúvidas entramos em contato para saber o que acharam.

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