Lisboa pronta a usar

dezembro 20, 2010

Em Lisboa, dar pernadas é o melhor passeio. Vira e mexe se encontra um miradouro, uma praça cheia de gente do mundo inteiro – e não só da Europa ocidental -, uma tasca (boteco) com gente mais fora do que dentro batendo um papo. Sempre com o Tejo prá compor a paisagem.

É uma beleza prá quem mora. Prá turista, então, nem se fala. E se prá turista é bacana, que dirá para quem vive de turista, né? Em Lisboa, 9% do PIB  vem do bolso da galera que veio comprar imã de geladeira, azulejo de galinho de barcelos, caldo knorr por haxixe e comer maravilhosamente bem.

Então é bom manter as coisas arrumadas para as visitas. É o que a Câmara Municipal (equivalente à prefeitura) está fazendo com a Baixa – o centrão de Lisboa -, principal destino turístico da cidade. Amanhã vai à votação um projeto que, diz, tenta fazer a região ficar mais jovem, mais movimentada, mais bem cuidada, mais organizada, mais cheia de comércio de luxo. Mais consumível, como diz um sociólogo daqui. Tanto que algumas ruas vão virar shopping a céu aberto – em São Paulo, a rua Oscar Freire, crème do comércio de rua no Brasil, faz uma coisa mais ou menos assim no Natal. Saiu uma matéria nossa no Estadão de ontem.

A ideia é dar um tapa nessas fachadas meio velhotas e noutras ainda piores

Aliás, vão fazer o mesmo em várias regiões da cidade, como Alfama e o Chiado. Bacana. Dá muito mais dinheiro ter um monte de apartamento para jovem ou turista do que para velho aposentado. Também é muito mais sossegado andar num bairro cheio de gente do que em ruas mortas como as da Baixa ficam à noite. E o mercado imobiliário, é claro, agradece a suspensão de leis que dificultem a realização de obras ou a compra e venda de imóveis.

Bacana também é ver como é que a galera que não é turista, não é jovem e não compra em comércio de luxo vai fazer para consumir essa cidade.

A diferença de votos do 1º para o 2º turno em Portugal sugere que os eleitores da Marina foram de Serra ontem (a cobertura que fiz está no G1 aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Como deu para saber disso antes de iniciada a apuração no Brasil, a dúvida se colocou: e se a coisa for no mesmo caminho no Brasil? O pessoal do PT que acompanhava a votação na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (também houve no Porto) deu uma coçada na cabeça. Do PSDB não tinha ninguém visível.

O Serra aqui deslanchou do dia 3 para o dia 31 de outubro, enquanto a Dilma deu umas remadinhas só. Na verdade, duas: foi de 56% para 58%. O tucano foi de 29% para 42%. São 13 a mais. Como a Marina no 1º turno ficou com 14% – e os números totais de votos não se alteraram lá muito entre uma votação e outra -, é de se supor que quem foi de Avatar aqui, depois preferiu o  Nosferatu à Mônica.

Os dados do 1º turno são do TSE. Os do 2º são apuração própria.

Domingão passado fui lá fazer a cobertura das Eleições 2010 em Lisboa para o G1. De 2006 para cá, Portugal virou um dos maiores colégios eleitorais fora do Brasil, com 23 mil eleitores. Lisboa, com 12,4 mil, só perdia para Nova York entre as 154 cidades que teriam votação. Porto, com 10,8 mil, ficava em 4º, acima de – juro – Miami.

Mas domingão é muito mais domingão quando cai no meio de um feriado: hoje aqui comemora-se o Dia da República. Não bastasse isso, o interminável sol lisboeta resolveu tirar uma com a cara de quem venceu essa maldade, pegou o titulo de eleitor e, triunfal ou não, foi às urnas. Um parêntese aos portugueses: um dos poucos documentos que um não serve para votar, dentro ou fora do Brasil, é o título de eleitor. Disso a Maitê Proença não tira sarro, né?

Choveu prá dedéu. E a chuva, em dia de eleição, também causa tragédias. Para aqueles de estômago forte e capa de plástico resistente, cenas fortes direto da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde ocorreu a votação…

Vai ver por isso a abstenção foi de cerca de 60%.

Com essa década não se brinca, então talvez seja mais prudente dizer que PODE ser um sinal.

Era para ser uma tardezinha tranquila de ranchos folclóricos portugueses na Praça da Figueira, no centro histórico de Lisboa, mas foi bem mais criativo (olha!).

Todo mundo que saiu para a rua nos últimos 5 anos já se perguntou, algum dia, o porquê dos anos 80 teimarem por aí. Mesmo quem não saiu provavelmente ouviu o vizinho descobrindo o Master of Puppets do Metallica (nosso caso!) ou o Like a Virgin da Madonna. Num evento de bandas prá frentex em Londres, no finado Bardens Boudoir, a galera curtiu um show que parecia a versão inglesa do Clara Crocodilo, da Sabor de Veneno. Inclusive as duas meninas que estavam de blazer verde com ombreiras.

A gente não foi fazer foto da banda porque tamo velho demais para o burburinho. Fica o carrinho de churros

Por aqui não é diferente, mas a Praça da Figueira deu uma luz. Era aí pela meia noite e os ranchos folclóricos com suas canções tradicionais já estavam rumando nos veículos fretados pros Alentejos, Minhos e Algarves, provavelmente. Sobraram o quiosque de cervejas, um trailer vendendo churros e porras e o palco. Lá em cima, um quinteto que tinha entre os 12 (o tecladista) e os 17 (a vocalista), mandando brasa num repertório de clássicos do pop. Da década passada: “This Love”, do Maroon Five, que a novela Senhora do Destino bombou no Brasil, é de 2002.

Tinha lá umas 150 pessoas swingando com o som dos guris, o suficiente para deixar uma parte da cidade baixa viva durante a noite. O bastante também prá gente ver que essa de revival dos 80’s, galera, tá ficando quadrado demais da conta. Coisa de quem pega os fretados mais cedo.

Até tu, tasca?!

agosto 26, 2010

Começou lá nos idos de julho e continua até agora agora. Apurando pauta por telefone ou email, a resposta era a mesma: “out of office” ou a secretária de castigo avisando que os outros estavam de férias. Parece que só as coitadas não tiram férias nessa época.

Até aí era aquela coisa mais ou menos… esperada, vai. No Brasil, julho também é férias; aqui é verãozão, a gente tem que se imaginar lá em dezembro, janeiro. Sol, tempo livre = chopp (imperial por aqui) e caracol.

para todos, boas feriasJá que só o otário do Bonde de São Januário quer saber de trabalho quando os outros estão de férias, fomos dar nossas pernadas e aproveitar Lisboa entre uma pauta furada e outra vendida no suor dos 40 graus, que só carioca é que acha que isso é coisa deles. Lisboa é Lisboa, ao menos na parte antiga. Cada quarteirão é um passeio, cada miradouro dá uma vista de dar saudade adiantada. E entre um e outro, milhares de portinholas com os toldos idênticos – de gosto duvidoso – e  idênticas cervejas, chopps e tira-gostos – de um bom gosto espetacular. O trabalho é escolher onde sentar, já que há tantas tascas (os botequins), daí.

Isso quando não é verãozão. De repente, começa um pesadelo. As três quitandas vizinhas — e que são de imigrantes, os caras que não fecham nunca, sabe? — resolvem fechar por um mês. Ainda bem, pelo menos não foram todas de uma vez. Você pensa num restaurante, numa tasca e… cara na porta. Até o V de vingança, dono da tasca aqui em frente e autêntico botequeiro, que joga baralho e dominó a ponto de não se saber quem é cliente, quem é amigo, resolve fechar. Não!

Sozinhos no meio da cidade, só com as áreas turísticas ao alcance, a gente começa a ficar com medo. Começa a vir aquele redemoinho: crise, desemprego, copa perdida, Cristiano Ronaldo pai solteiro, o Saramago já era… Será que tá todo mundo vazando e deixaram a gente aqui? E sem as chaves das tascas?

Semana que vem termina agosto e começa a vencer o prazo de algumas placas nas tascas. Nosso vizinho só aguentou ficar parado uma semana. É sinal de que vida deve continuar em Portugal.

A faixa branca, obviamente, denuncia os problemas de visão da guria

Ainda não entendeu? A gente explica, então, vai. Tem um povinho que não tem perfil para apreciar a arte ou não sabe que os dois donos desse blog são jornalistas.

Essa leve cor-de-maravilha com que se apresenta desde a noite de sábado o nariz da Simone é a última obra acabada de José Saramago (Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas ficou incompleto). Fruto de 12 horas sob um sol de 30 graus que tornou a Praça do Município, onde ficou o funeral em Lisboa, em churrasqueira de jornalistas, fãs do escritor e aquela meia dúzia de desocupados que sempre acompanha uma bagunça.

O material da Simone está no OperaMundi e o do Vitor, no G1.

No fim, foi pequeno e foi bonito. Apareceram lá umas 15 mil pessoas no sábado e havia umas mil na cremação, no domingo. É um bocado de gente, mesmo em tempo de Copa do Mundo. Mas com dois milhões de livros vendidos, a gente acreditava que Saramago ia mudar a rotina de mais gente. A família até que ajudou: abriu o velório ao público e à imprensa, fez três sessões de funeral (uma em Lanzarote, nas Ilhas Canárias onde ele morreu; e duas em Lisboa). A Câmara Municipal de Lisboa, onde ocorreu o velório, botou anúncios de “Obrigado, Saramago” em painéis publicitários, colocando o escritor em lugares geralmente ocupados por bundas sem celulite e sorvetes de creme.

Painel na avenida que leva ao cemitério onde o escritor foi cremado

A culpa, parece, foi do morto. Casca grossa que era, comunista e ateu praticante criou uma boa cota de imbirrados — como percebemos desde que chegamos aqui. O presidente português, Cavaco Silva, parece estar entre eles. Ficou lá pelos Açores, onde curtia umas curtas férias com a família. Na sexta, mandou uma nota oficial daquelas que parecem modelo do Word, sabe? Só precisa substituir o nome. Em 1992, foi o governo dele que impediu O Evangelho Segundo Jesus Cristo de concorrer ao Prêmio Europeu de Literatura. Imagina que um livro profano desse iria representar o católico povo português, como se argumentou à época. Como se literatura tivesse o dever de representar alguma coisa e não fosse suficiente ser só literatura.

Hoje a história da Dona Rosa já deve estar circulando pelas bancas e bolsas de carteiros do Brasil, na edição de junho da revista piauí.  É o caso de uma fadista cega que, além das ruas daqui de Lisboa, costuma soltar o gogó também em palcos de casas de concerto e castelos pelo mundo. Ela nunca esteve no Brasil – o mais perto que chegou foi Estados Unidos.

Quem não está para dar pernadas pela baixa lisboeta ou  passear pela Galícia em setembro – onde rola a próxima turnê – pode matar a curiosidade pelo Myspace. Vale a pena. Os discos custam 15 euros e também valem. Dá para conseguir um direto com ela, na Rua Augusta daqui, ou pelo site da gravadora. A gente vai comprar um logo mais, para cumprir a promessa e desconstruir a imagem que ela (Deus e todo mundo) tem dos jornalistas. Até podíamos levar uns para aí, mas vai que a alfândega implica com tamanha muamba.

Recentemente ela deu uma sumida do cantinho dela. A gente espera que esteja tomando umas ginjas com os cobres que fez em maio na Polónia.

Foram 38 dias sem dar uns toques no blog. Começou – ou melhor, parou – em 30 de abril, quando a gente comentou as últimas bordoadas que atingiam os portugueses e como só o futebol dava um refresco.

Pois veio maio, teve a manifestação do dia 1, a primavera se instalou de vez na Europa, o vulcão peralta lá da Islândia sossegou um pouco, o governo português continuou a queda de braço com as agências de rating apertando a economia, a seleCÇão foi para a África do Sul, o fim do semestre letivo se aproximou e um misto de compromissos profissionais, pessoais e acadêmicos ocupou 100% da nossa memória RAM. O blog ficou nos bloquinhos de anotações, junto com entrevistas, endereços de hotel e de passeios, lembretes, rascunhos de ensaios, contas e aqueles zés-palitinhos que todo mundo faz quando precisa de uns minutos off-line de si mesmo. Pouco a pouco vamos passando o que interessa para cá para cá mesmo. Por isso, voltem a reservar uns cliques para nós, se faz favor.

Parte do sumiço passamos em quatro hostels em Londres e três hotéis de grandes redes em Portugal (Lisboa e Porto). Hospedados ou não, descobrimos que é nos pulgueiros que mais se conecta. Tudo bem que seja em troca de ficar sem café da manhã: pão se pode comprar em pacote, internet por dois dias, não.

Foto que ilustra a página de serviços e facilidades do Sana Lisboa

Em três dos albergues que ficamos, a rede sem fio era gratuita para todos – estivéssemos hospedados em quartos de 2 ou 12 pessoas. Já nos dois hotéis, só no desktop do saguão, com a fila de praxe. Aqui em Lisboa, uma das unidades da rede Sana tem chão de mármore, piano no lobby e um interminável kit de higiene pessoal de graça. Na recepção, as balinhas oferecidas aos hóspedes ficam em cristaleiras; mas a internet sem fio, só para quem pagar 5 euros por hora de acesso – ou 10 por 24 horas corridas. Vai ver os gerentes de hostels manjam que mochileiro não é lá muito fã de banho.

A internet aqui em Portugal está entre as mais caras dos países da OCDE –  a Organização Para Cooperação e Desenvolvimento Económico – e a do Reino Unido é a segunda mais barata. Albergue é mais barato que hotel quatro estrelas tanto aqui quanto lá. Coisas que só navegar entre extremos ensina.

Atrás do eléctrico

abril 11, 2010

A massa – ou a malta, como se diz por aqui – reclamou com razão e nos deu um motivo para ir tomar um chopp – imperial, como se diz por aqui – na Baixa de Lisboa: buscar novas vistas para a nossa janela e a foto do bonde dos mané, que mencionamos no post passado.

Com a cidade finalmente acima dos 24 graus e um sol solitário no céu, as áreas pop estavam cheias. Caminhamos bem uns quatro quilômetros, desesperada e turisticamente pelo sol. Saímos da Universidade Nova, descemos a avenida da República e logo chegamos à Praça Marquês de Pombal e ao Parque Eduardo 7º, onde vai ter feira do livro no fim do mês. Programa barato e divertido.

Dali descemos em direção ao Rossio pela Avenida da Liberdade e encontramos o Teatro São Jorge cheio de gente por conta da Panorama – mostra de documentários portugueses. Mais programa barato e divertido, só que o sol queria companhia e só pegamos a programação. Fomos em busca de um mural de fotos coletivo que seria construído por quem passasse pela Baixa, assim como em diversos outros lugares em diferentes cidades do mundo. A ideia é de um projeto chamado Wall People, que começou em Barcelona e espalha essas ideias de intervenção urbana pelo mundo. Outro programa barato e divertido que tá na moda.

Não encontramos o mural, que foi pequenino em Lisboa — ainda assim barato e divertido. E por falar em moda, ó quem entra na passarela:

Levou mais de quatro meses, até a gente finalmente achar um lar em Lisboa. Em um prédio antigo, numa rua estreita, no centro e com espaço para estudar, trabalhar, cozinhar e até tomar sol na varanda dos fundos, com uma horta que a gente não pode usar mas que compõe a paisagem. Teríamos nosso quarto, sacadas e muita luz (artigo raro por aqui pois os cômodos costumam ser pequenos e internos) e um escritório numa casa de gente legal e adulta. Só faltava o recheio.
Mais umas semanas de garimpo, agora por móveis, e encontramos um belo caminho para montar uma casa legal gastando pouco, consumindo menos do que se pode e aprendendo mais do que se costuma.
Começamos a busca pelo tradicional jornal de vendas de objetos usados, o Ocasião. Vasculhamos a internet e encontramos diversos sites de móveis de segunda mão como o Coisas, Custo Justo e Olx e entramos no Freecycle, a comunidade de trocas em que dinheiro não entra.
O garimpo rendeu quarto e sala por pouco mais de 200 euros. De um casal que estava vendendo a casa para voltar ao Brasil compramos cama, colchão e estante por 130 euros. De um português que queria se desfazer do que restou de uma empresa que abriu e não conseguiu continuar, ficamos com duas cadeiras de diretor de empresa por 50 euros. Nossa escrivaninha classuda, a cômoda, o criado mudo e uma cama sofá (que ainda precisa de almofadas) custaram o preço da entrega: 25 euros. Teve ainda o gasto com uma arara, uma mesinha de centro, cabides, tapetes e velas que não chegaram a 30 euros.
Dizem que agora que o sol finalmente voltou a secar Lisboa começam a descartar nas calçadas móveis usados, aí o garimpo pode ser a céu aberto.
O gasto pequeno ainda deve dar oportunidade – e necessidade – de desenvolver dotes artísticos. A ideia é pintar a mobília de branco, arranjar uns tapetes e luminária e quando tudo estiver lindo e personalisado, voltamos para o Brasil e começamos tudo de novo por lá.

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