Manja experiência antropológica? É um eufemismo, muito em voga, para um belo programa de índio. Tipo aquele do qual saímos faz umas horas – menos do que as 40 da aventura.

Foi a volta de Paris para Lisboa, num ônibus carregando os brasilinos aqui, outros ex-colônias (como cabo-verdianos) e um punhado de emigrados portugueses na França. Duraria um bocado, 27 horas, e seria mais longa ainda se não fosse a gente adotar a postura otimista aí acima.

Faltou limão, açúcar e pinga, né?

Nas primeiras 12 horas tínhamos rodado uns 30 km. Se ainda fosse mantida a média de 2,5 km por hora, dava para ir apreciando a paisagem. Mas que nada. Saímos às 10h de Paris, empacamos perto de Versalhes às 12h e voltamos a circular umas 23h. Uma baita nevasca, em que até pingüim passava de cachecol, fechou a rodovia.

“Só às 11 da noite. TGV e aeroporto já estão funcionando. Viva a França!”, dizia um caminhoneiro que também entrou na brincadeira a contragosto. O indignado aí acertou, mas como não apareceu uma boa alma para dar uma previsão exata, a regra era ficar por perto do ônibus. Não que o pessoal todo estivesse afim de sair correndo para fazer bonecos de neve muito longe dali, mas tinha um bar daqueles em que amendoim e batata chips acompanham cada cerveja. Um crime colocar um negócio desses perto, mas fora do alcance de quem tem horas a fio para jogar fora.

A galera, que já tá no movimento comida caseira antes de aquele francezinho lançar a moda, começou a torrar os estoques. Caíram para dentro até os croissants e fromages que tinham ficado lá no bagageiro para virar, talvez, presente pros parente. Uns abriram umas cervejas. Celulares, Bíblia, dar de mamar para o bebê ajudaram outros a matar mais um bocado do tempo.  Botaram o filme “2 filhos de Francisco” para rodar. O som tava baixinho, mas quem tivesse bom, mas bom mesmo das vistas podia acompanhar a legenda em uma das duas telinhas de 10 polegadas estrategicamente distribuídas em um ônibus de 50 lugares.

Mas como DVD, bateria e paciência também arriam, pouco a pouco as diversões particulares foram indo pro beleléu – ou melhor, esfriaram, já que nada se mexia no meio daquela geleira toda. Hora de olhar para o lado ou para fora. Uma jovem foi toda peralta brincar com a neve, um grupo de mulheres se entreteu na conversa dum tanto que até passou a ir junto no banheiro  durante o resto da viagem, a criançada me achou com cara de palhaço e veio tirar onda da minha barba, uma idosa pediu o celular para a Simone. “Ô Brasil, fumas uma ganza (como se diz por aqui)?”, perguntou o vizinho do lado. O de trás se mudou lá para frente para paquerar. Uma senhora deitou-se no corredor prá brincar com o neto: “Pisa o cu da vó! Pisa o cu da vó!”, gritava pro guri. Cu, em português português, é bunda, seus maldosos.

Com tanta animação e gelo, faltaram mesmo açúcar, pinga e limão.

“Se a gente nào tivesse encalhado”, comentou a Simone lá pela trigésima hora de viagem, “não tínhamos visto o País Basco”. No cronograma oficial, passaríamos por aquela região durante a noite. Assim sim.

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