É brincadeira, gajada

março 10, 2011

Não vamos dar uma de brasileiros e manter aquele desânimo da quarta-feira de cinzas, pô.  Ânimo, rapaziada. Ou, Ânimo, gajada, para corromper uma palavra que não atravessou o Atlântico.

É assim mais ou menos que o premiê e o presidente de Portugal se referiram à juventude daqui, que está numa folga que eu vou te contar. Eita povinho que desocupado: o desemprego entre os 18 e os 25  está em 23%. É mais que o dobro da média nacional, de 11,2%, que já é recorde desde pelo menos uns 20 anos, quando ainda talvez se chamasse fila de bicha – algo que a imigração brasileira, parece, fez desaparecer.

Primeiro, para não perder a piada, foi o premiê: na terça-feira, interrompido durante um discurso por uns jovens que faziam protesto contra a falta de emprego, mandou lá: ” “Se me permitem, camaradas, eu gostaria de fazer um convite às pessoas que agora entraram para jantar connosco, não temos nenhum problema nisso. Somos um partido da tolerância, estamos no Carnaval e a verdade é que no Carnaval ninguém leva a mal.” Os seguranças dele é que parecem não ter ouvido o recado e botaram o bloco dos indignados na rua.

Ontem foi a vez do Cavaco, que se reelegeu no último dia 25. Quando nem bem a ressaca de ontem tinha passado, pediu que os jovens ajudassem Portugal a se tornar mais credível na cena internacional.  Para quem exagerou no lança-perfume, a terrinha aqui é dada como a próxima Irlanda, aquela que um dia foi a próxima Grécia.

E mais: mandou a galera remar, que nem fizeram que tornaram o país um império um tempinho – algumas revoluções, um Estados Unidos, uma China… – atrás . No duro: “Quando olhamos para estes jovens e quando olhamos para a imensidão do mar português estamos a olhar para o futuro de Portugal. Caros jovens, estou certo de que não ireis baixar os braços. Estou certo de que não se resignam. Portugal precisa de vós, Portugal conta convosco”, disse no navio-escola Sagres ontem.

Cadê a alegria nesses rostinhos?

Desculpem o mau-humor, mas é que passamos o carnaval numa gripe de lascar, trocando fantasia por pijama e cerveja por caldo verde.

Anúncios

Ontem foi dia de greve geral em Portugal, a primeira desde 1988 feita pelas duas grandes centrais sindicais. Fomos para a rua fazer a cobertura — a Simone para O Globo, eu para o Opera Mundi.

Sem querer entrar  inevitável na guerra de números entre governo e sindicatos, deu prá ver que bastante gente parou. Não é todo dia que o metrô da capital de um país fica fechado durante um dia todo ou que as conexões entre um lado e outro do rio da cidade param completamente. Nem voando dava para sair de Lisboa: quase todos os voos – exceto um ou outro para os Açores e para a Madeira – foram cancelados.  “Fomos pá greve lutar pelo país”, botou num cartaz o dono de uma merceria aqui perto de casa.

ocê vê isso...

Caos? Filas intermináveis? As massas nas ruas? Nem por isso. Nessa semana, Lisboa vai ter dois sábados. Um foi ontem, em plena quarta-feira: serviços públicos fechados, pastelarias abertas. Além disso, não houve um grande protesto, como ocorreu em 29 de setembro ou em 1 de Maio.Todo mundo paradinho mesmo.

Estranho, né? “Êpá, eu sou português, mas juro que acho que morro sem entender os portugueses”, disse um amigo nosso.

A gente desconfiou lá em outubro, quando ligamos para as centrais sindicais para perguntar sobre qual era a programação da greve.  Um dos argumentos é que, sem transporte público funcionando, ia ficar difícil para o pessoal se deslocar até os locais da manifestação.

...e acredita nisso?

Houve até uns grupos que se reuniram ali na Praça Eduardo IV.  Tocaram música, bateram bumbo, levantaram cartazes, fizeram shows e sketches. A turistada se juntou aos jornalistas para fazer foto, um político ou outro fez discurso, e deu. A greve foi no piquete ou em casa.

A diferença de votos do 1º para o 2º turno em Portugal sugere que os eleitores da Marina foram de Serra ontem (a cobertura que fiz está no G1 aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Como deu para saber disso antes de iniciada a apuração no Brasil, a dúvida se colocou: e se a coisa for no mesmo caminho no Brasil? O pessoal do PT que acompanhava a votação na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (também houve no Porto) deu uma coçada na cabeça. Do PSDB não tinha ninguém visível.

O Serra aqui deslanchou do dia 3 para o dia 31 de outubro, enquanto a Dilma deu umas remadinhas só. Na verdade, duas: foi de 56% para 58%. O tucano foi de 29% para 42%. São 13 a mais. Como a Marina no 1º turno ficou com 14% – e os números totais de votos não se alteraram lá muito entre uma votação e outra -, é de se supor que quem foi de Avatar aqui, depois preferiu o  Nosferatu à Mônica.

Os dados do 1º turno são do TSE. Os do 2º são apuração própria.

“Não é que eu tô desempregado”, disse um brasileiro que não quis dar entrevista esses dias atrás, em Lisboa. “Meu patrão me chama quando tem obra. Então eu tô esperando ele me chamar. Não tô desempregado.”

É que nem o outro que dizia coisa parecida à época da Copa do Mundo. Tem emprego em Portugal? Sim. “Põe aí que sou chapa” – aqueles que ajudam a descarregar caminhões – na região do Martim Moniz, a china-bangla-town de Lisboa.

O Eliomar, que está na matéria do G1 que fizemos sobre a situação dos brasileiros por aqui, largou mão da vaga de funcionário da limpeza que tinha conseguido. Não sobrava dinheiro prá mandar pro lado daí do Atlântico. Agora, preparando e entregando quentinhas, até que tá dando. Não tá desempregado.

A matéria trata dos que realmente estão — com dados de uma baita pesquisa feita por três universidades portuguesas com a comunidade brasileira. Foram ouvidos 1.398, entre janeiro e junho de 2009. Descontados estudantes, aposentados e outros considerados inativos, o desemprego era de 17,7%. No geral, em Portugal, estava na casa dos 9%. No Brasil, estava em 7% nas seis regiões metropolitanas onde o IBGE faz a Pesquisa Mensal de Emprego.

Nos últimos dez anos, Portugal vem se tornando uma alternativa mais difícil para os brasileiros em busca de fazer a vida no estrangeiro. De lá para cá, a coisa evoluiu mais ou menos assim (mais ou menos porque há diferenças metodológicas entre uma pesquisa e outra):

Com a pisada no breque que o governo português vai dar na economia para 2011, o laranjinha aí não parece que vai inverter a tendência, não. Até lá, a gente tá aqui prá contar.

 

Nós somos vocês

outubro 8, 2010

Quando uma espanhola estranha algumas cenas do cotidiano entre portugueses e brasileiros aqui, dá uma sensação de alento. Afinal, talvez não seja só maldade nossa. “Eles sempre fazem isso, sempre conversam dessa forma?”

De um modo geral, sim, ao menos entre desconhecidos. Numa pastelaria, há quase um ano atrás, quando recém tínhamos pisado em Lisboa, compramos um doce. “Como vocês chamam isso aqui?”, pergunta o balconista mostrando pimenta-do-reino. “Isto aqui é pimenta, vocês chamam do reino porque vinha daqui, do reino.” Ficamos em dúvida entre nos irritar com o espírito colonizador ou simpatizar com a aula de história do cotidiano.

Dias atrás, um ano depois, veio o episódio testemunhado pela espanhola. A conversa com o velhote, que durou cinco minutos, era sobre a banda portuguesa que ia tocar em um festival em Alvaiázere, os Galandum Galundaina. Descambou para a eleição brasileira que seria no dia seguinte e, não perguntem como, acabou em: “mas uma coisa vocês têm de admitir, fomos nós que mantivemos as fronteiras actuais do Brasil.”

Mentira, não acabou aí porque até houve espaço para um diálogo e um final melhor ainda. “Mas por que veio estudar cá? O Brasil tem universidades tão boas já.” Às vezes parece que gostamos mais daqui que os próprios.

É a versão rua da pesquisa que detectou atitudes colonizadoras no Second Life.

E como generalizar é sempre besteira, o próximo post será sobre as relações contrárias. Tem uma galera aqui que só falta tatuar o mapa do Brasil na lomba.

Amanhã cedinho (ou já já, no horário daqui), o governo português vai ser julgado no Tribunal de Justiça Europeu por impedir, no entender da Comissão Europeia, a livre circulação de capitais. De novo e não é a última vez.

O caso amanhã está ligado ao bafafá do momento entre os vizinhos ibéricos: a compra, pela Telefónica, da parte que a Portugal Telecom tem  na Vivo aí do Brasil. Os espanhóis ofereceram 7,15 bi de euros e a maioria dos acionistas topou, mas o governo português vetou. É essa possibilidade de apitar – que na tradução para o inglês vira golden share e para o economês, ações privilegiadas – que a Comissão Europeia quer tirar do Estado da terrinha.

Portugal é o país com mais processos contra o uso da golden share no Tribunal europeu: três de 11. Além do da PT, um da Galp (de petróleo) e outro da EDP (Energias de Portugal) que ainda aguardam julgamento. Fora isso,  foi condenado duas vezes por usar mecanismos de botar o pé na janta: em 2002, por ter uma legislação que impede a participação, em empresas privatizadas, de estrangeiros acima de um determinado limite; e em 2004, por bloquear a compra de até 100% da Cimpor (de cimentos) pela Secil (espanhola, mas detida por uma empresa portuguesa) e a Holderbank (suíça).

Mas, talvez influência da convivência, os espanhóis também levaram lá seu pito: em um processo, em 2003, o TJ condenou o governo dos hermanos dos gajos por manter golden shares na Repsol (petróleo) na própria Telefónica e na Telefónica Servicios Móviles, no Argentaria (banco), na Tabacalera (tabaco) e na Endesa (energia).

A gente fala pito porque, embora condene, a Comissão Europeia não tem como mudar as leis de um Estado-Membro. No limite, no limite, pega pelo bolso, aplicando sanções pecuniárias.

Rico ou pobre, velho ou novo, recém fugido ou já enraizado num novo lugar nada disso parece ser determinante para que um torcedor continue fiel a sua nação ou vire a casaca para o país para o qual se mudou. É o que temos visto por aqui nas últimas semanas, em que estivemos conversando com portugueses e brasileiros sobre para a seleção para a qual estão torcendo — e fizemos uma, duas, três, quatro matérias pro G1.

Encontramos os tradicionais brasileiros fanáticos, incapazes de trocar o Brasil por outro país — pelo menos na hora de torcer –, alguns com rixa forte com Portugal por ser o lugar em que moram e, consequentemente, o palco dos problemas que vivem. No meio do caminho, muitos dividem os berros entre as duas seleções e se veem com uma chance a mais de levar a Copa. E tem os que aproveitam para livremente desancar a seleção canarinho (alcunha que os locutores portugueses não esquecem), ganhando a simpatia dos portugueses.

É como explicar paixão, diz o outro. O respeito e as oportunidades que o país apresenta e as dificuldades e desigualdades que ele impõe também são dessas “coisas do coração”.

Talvez isso ajude a entender um brasileiro que mora há sete anos não se entregar: “Aqui até é bom, mas Brasil é Brasil e português… não é brasileiro. Continuo torcendo para a seleção”. Outra, moradora de Lisboa há nove, meio aqui e meio lá: “É aqui que vivo, aqui que ganho dinheiro. Demora para se aproximar de um português, mas quando se conquista um amigo, são até mais verdadeiros que os brasileiros. To torcendo pros dois.” E um terceiro, entregue de corpo, alma e casaca aos portugueses depois de dez anos vivendo no país: “Eu sou torcedor de Portugal, é bem mais tranquilo para mim e gosto muito do time do país”.

O primeiro anda aos trancos e barrancos entre biscates (cuidado, bico aqui é outra coisa) e resolveu não ir embora porque a mulher tem emprego fixo e o governo paga auxílio-bebê. A segunda trabalha 11 horas por dia,  e manda dinheiro à filha no Brasil. O terceiro trouxe a mulher, dois filhos e o genro e mora num bom apartamento no centro, o que no Brasil não conseguiu fazer.

Depois do adeus do time português na terça, vai que amanhã até os que viraram a casaca repensam seus conceitos.

A faixa branca, obviamente, denuncia os problemas de visão da guria

Ainda não entendeu? A gente explica, então, vai. Tem um povinho que não tem perfil para apreciar a arte ou não sabe que os dois donos desse blog são jornalistas.

Essa leve cor-de-maravilha com que se apresenta desde a noite de sábado o nariz da Simone é a última obra acabada de José Saramago (Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas ficou incompleto). Fruto de 12 horas sob um sol de 30 graus que tornou a Praça do Município, onde ficou o funeral em Lisboa, em churrasqueira de jornalistas, fãs do escritor e aquela meia dúzia de desocupados que sempre acompanha uma bagunça.

O material da Simone está no OperaMundi e o do Vitor, no G1.

No fim, foi pequeno e foi bonito. Apareceram lá umas 15 mil pessoas no sábado e havia umas mil na cremação, no domingo. É um bocado de gente, mesmo em tempo de Copa do Mundo. Mas com dois milhões de livros vendidos, a gente acreditava que Saramago ia mudar a rotina de mais gente. A família até que ajudou: abriu o velório ao público e à imprensa, fez três sessões de funeral (uma em Lanzarote, nas Ilhas Canárias onde ele morreu; e duas em Lisboa). A Câmara Municipal de Lisboa, onde ocorreu o velório, botou anúncios de “Obrigado, Saramago” em painéis publicitários, colocando o escritor em lugares geralmente ocupados por bundas sem celulite e sorvetes de creme.

Painel na avenida que leva ao cemitério onde o escritor foi cremado

A culpa, parece, foi do morto. Casca grossa que era, comunista e ateu praticante criou uma boa cota de imbirrados — como percebemos desde que chegamos aqui. O presidente português, Cavaco Silva, parece estar entre eles. Ficou lá pelos Açores, onde curtia umas curtas férias com a família. Na sexta, mandou uma nota oficial daquelas que parecem modelo do Word, sabe? Só precisa substituir o nome. Em 1992, foi o governo dele que impediu O Evangelho Segundo Jesus Cristo de concorrer ao Prêmio Europeu de Literatura. Imagina que um livro profano desse iria representar o católico povo português, como se argumentou à época. Como se literatura tivesse o dever de representar alguma coisa e não fosse suficiente ser só literatura.

Mesmo mal das pernas e pagando juros maiores que os da Grécia, o crescimento da economia portuguesa não está lá tão baixo quanto as más notícias vindas das agências de rating e os consequentes planos de cortes de gastos podem fazer crer. Mas – somos jornalistas, lembram? –, se a notícia é boa, vem acompanhada de uma ruim: a coisa pode piorar.

A imprensa portuguesa publicou hoje uma matéria sobre esse assunto, na onda da revisão do PIB do primeiro trimestre (que só ela renderia outro post, já que a revisão foi por mudança de forma de cálculo); na semana passada a gente produziu uma reportagem sobre isso para o Los Angeles Times.

O desempenho positivo vem dos números da Eurostat. No primeiro trimestre do ano, Portugal foi o quarto país que mais cresceu na zona do euro: foram 1,7%, bem acima da média dos membros (0,5%). Um belo resultado para um país ancorado na família. É nelas que se busca alívio para as quedas de rendimento e são também as donas da maior parte das pequeninas empresas que movem Portugal.

Se a gente olhar para o Brasil a discussão parece deslocada, já que o crescimento foi de 9% no primeiro trimestre desse ano, segundo o IBGE. Se olharmos para Portugal no ano passado, ela se enfraquece mais um bocado porque o crescimento é sobre um período ainda menos estimulante. Se o foco for o plano de austeridade divulgado no começo do mês, o presente pode ser  alentador e o futuro, fadista.

O resumo do fado. O governo português deu aquela espremida para ver se sai um caldo, mas pode é enfiar o pé no breque. Para já, aumentou o imposto de renda para pessoas físicas e jurídicas. A  partir de julho, elevará  também o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), que pega o consumo – de pastel de nata para cima. Os empréstimos ficarão mais caros por causa do aumento do imposto do selo pago nessas operações.

Perdoem o sensacionalismo, mas a culpa não é só nossa. É também do Eurobarômetro, um setor de pesquisa da União Europeia que, como todo bom instituto de pesquisa, pesquisa tudo. “Estão todos aí?” perguntaram no ano passado a 30.292 mil nos 27 países-membros, nos 3 candidatos (ex-República Iugoslava da Macedônia, Croácia e Turquia) e na Comunidade Turco-Cipriota. Os resultados, se não surpreendentes, são curiosos.

– 59% disseram que não. Falta pelo menos um. Aqui na terrinha, o índice sobe para 68%

– 7% dos europeus não têm nem unzinho para roer a azeitona

– Turcos, belgas, poloneses, portugueses e moradores do Reino Unido estão entre os banguelas que mais usam dentadura

E comem. Mandam alguma coisa cinco vezes por dia, em média. Na Dinamarca, mais de oito vezes por dia. Na Holanda, talvez pela larica, 7. Quem come menos são os gregos, romenos e a búlgaros, 3 a 4 vezes ao dia. Pode ser cultura, né, mas fato é que desempregado é quem come menos e executivos e estudantes, mais.

Os dados podem ser consultados aqui.

%d blogueiros gostam disto: