Questionadores, esses teimosos tentadores de janelas estão por toda parte. Onde menos se espera – como o café da reitoria da universidade – se encontra quem leva o esporte às últimas consequencias. Como aquela senhora que conversava sobre escovação dental com seus amigos velhotes enquanto finalizava a sopa.

Uma das premissas a se ter na vida é não levar para casa e inserir no cotidiano informações que soam a axiomas de um teorema. Ou seja, não botar fé em qualquer papinho besta sem pelo menos perguntar “É memo?¨. Era o que tentava mostrar a velhota aos amigos, talvez sem se dar conta, quando contava sobre sua desconfiança em relação aos vaticínios de uma amiga – quem sabe uma neta, uma sobrinha –, que alardeava a necessidade de sermos todos sustentáveis.

Vai um copinho?

A amiga da senhora e do meio ambiente – como todos viemos nos tornando – recomendava a mudança de hábitos, munida de dados que atestavam a urgência disso. Para que fechasse a torneira, ela argumentava que uns 9 litros de água são disperdiçados durante a escovação. A senhora achou aquilo demasiado. “É memo?”

Foi escovar os dentes e levou junto uma bacia. A água que seria disperdiçada ficou ali e ela pode medir o gasto: 3 litros. Seus dois amigos velhotes aprovaram a atitude com trocas de olhares vencedores.

Até que um se lembrou: se calhar, também não escovava exatamente da forma como recomendam os peritos, daí a diferença para os dados trazidos pela amiga em questão. Ela, uma insurgente, concordou. Mas foi lá buscar outro argumento para provar ser sustentável. “Na verdade também não tenho mais tantos dentes. Restaram só uns pedacinhos para segurar os que eu posso tirar.”

Todo mundo concordou que os banguelas, se calhar, agridem menos o meio ambiente. Ela se tranquilizou. “Escovar os dentes usando o copo, não. Lembra o tempo em que era nova, não tinha outro jeito. Lembram?” Eles assentiram. “Luz branca eu também não gosto, é muito claro para se ter numa casa.”

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Em algumas regiões de Lisboa — é o caso de Arroios, onde moramos agora — não há coleta de lixo reciclável porta a porta, então é preciso levar seu fardinho e separá-lo nos ecopontos (grandes ilhas de recebimento de lixo espalhadas na cidade). Ontem à tarde fui ao mercado e aproveitei para esvaziar a nossa sacola, mas sobraram uns quatro papelitos e uns grãos de café. Então continuei meu trajeto em busca de uma lixeira sem tampa para virar ali o resto não reciclável.

Essa é a lixeira aqui do prédio, já vazia porque a recolha foi retomada na madrugada

A meia quadra do mercado encontrei a lixeira, virei a sacola e ouvi berros. Haviaha um senhor alto, de óculos escuros na mesma calçada, um pouco mais a frente. Achei que não era comigo, mas ao chegar perto dele, ouvi de novo: “Aquela é a minha lixeira!” Como? Ela está na calçada, é feita para receber lixo, não entendi a crise. “O lixeiro não passou hoje, por isso ela está fora do prédio. A menina não tem lixeira em casa?” Avisei de forma pouco polida que tinha jogado quatro papéis dentro, o que pouco ou nada contribuía para piorar a situação e fui às compras.

Vários serviços pararam ontem por aqui numa greve geral contra a congelamento dos salários dos servidores públicos. Os transportes não pararam, então não houve caos perceptível de longe, mas quem precisou de um serviço público teve problemas. A gente mesmo nem tinha se dado conta da extensão da paralisação – já que não é todo dia que vamos até o gabinete das finanças, ainda não temos filho na escola e eu não tive de ser internada de novo – até que fomos para a rua fazer uma ronda para uma matéria no OperaMundi.

Greve só sente quem precisa. Voltando da matéria é que o protesto ganhou cunho pessoal, graças ao dono da lixeira.

A gente está surdo

março 28, 2009

Moro num bairro no centro de São Paulo, numa das últimas quadras em que ainda é possível viver de uma forma salubre perto do minhocão, sem que as ruas estejam tomadas de lixo e gente morando nelas. Nas quadras ao redor, os sacos de lixo povoam as calçadas na frente dos bares e das casas, o lixo que saiu de algum estourado se espalha no meio da calçada e sempre que resolvem limpar um bueiro sai um sofá das entranhas.

 

Perto do lixo há loucos agoniados. Algum dia vou me juntar à velhinha que mora no canteiro daquela rua residencial duas quadras acima e vive conversando com algum surdo imaginário ou a um dos moços que encasqueta de espantar todos os espíritos ruins que não desgrudam, ali na quadra de baixo, sempre aos domingos à tarde.

 

Se eu ouvisse os berros deles e endossasse, teria engrossado o coro quando uma moça que toma banho, não grita na rua então deve ser normal tacou de dentro da padaria, do caixa perto da porta, um papel de que queria se livrar. Passou na minha frente, a bolina de papel. Parei na calçada com as compras na mão. Podia ter me acertado e foi por isso que ela pediu desculpas. Queria ter gritado, ensaiei um escândalo, mas parei por imaginar que ela estava surda. Pode ser o apocalipse que a velhinha da rua residencial vê.

 

Mas não é minha única visão. Tem uma outra modalidade de caos moderno que vem se instalando ao meu redor. São inexplicavelmente incapazes de usar fones de ouvido e dão a todos ao redor o prazer de compartilhar seu gosto musical incontestavelmente unânime, semeando o desespero e a desordem. O que será que exorcista de domingo à tarde diria? Talvez ligasse seu som tão ou mais alto, começasse a ler em voz alta. Ou só apontasse para o aviso “proibido o uso de aparelhos sonoros”.

 

Quando acontece uma dessas situações sobrenaturais que para mim parecem tão reais apesar de inconcebíveis, chego à conclusão de que os meus vizinhos de calçada podem ter razão ao lutar contra inimigos indecifráveis e enfraquecedores de qualquer crença na humanidade.

Uma maneira que a gente encontrou, sem pensar muito, de economizar plástico é forrar o lixinho do banheiro com jornal velho. Qualquer um leva jornal para o banheiro, a questão é usá-lo da maneira mais sustentável possível. Se houver alguma contra-indicação para o meio ambiente, por favor, avisem.

A ideia era colocar aqui uma bela lufada de inspiração contra as sacolas plásticas, mas uma busca no Youtube mostrou muito mais criatividade pró.  Diante disso, fica mesmo uma inspiração negativa. Vale para semear a discórdia.

http://www.youtube.com/watch?v=M2Oo2mKeFrI&feature=related

O bloco do Benefício da Dúvida pergunta: vendo isso abaixo, é para usar ou não?

http://www.youtube.com/watch?v=pGX-XykQmWo

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